domingo, 31 de março de 2019

31 de março de 1964: revolução, movimento ou golpe?


Em 31 de março de 1964, com 28 anos de idade, eu estava na cidade de Cantagalo, na região centro-norte fluminense. Meu pai, Henrique Luiz Frauches, era prefeito do município e eu o Secretário da Prefeitura. Havia somente uma secretaria. Atuava, ainda, como professor de Organização
Social e Política no curso Ginasial do Colégio Cenecista, sob a direção do meu amigo e professor Ewandro do Valle Moreira.
Eu e meu pai estávamos filiados ao Partido Trabalhista Brasileiro , fundado sob a inspiração de Getúlio Vargas, um partido que, à época, poderia ser considerado de centro-esquerda. Os comunistas e socialistas estavam em seus respectivos partidos ou infiltrados em partidos nanicos.
Os partidos políticos mais fortes eram o Partido Social Democrático (PSD), de centro e centro-direita, a União Democrática Nacional (UDN), de direita e extrema-direita, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de centro-esquerda, em uma classificação livre em relação aos padrões políticos da época.
O Brasil caminhava, sob a insegura e ambígua liderança de João Goulart, para a esquerda, infiltrada na parte inferior da hierarquia das Forças Armadas (sargentos e cabos).  Jânio Quadros (1917/1992) tinha sido eleito presidente da República, em 3 de outubro de 1960, tomado posse em 31 de janeiro de 1961 e renunciado em 25 de agosto de 1961. Em oito meses de desgoverno Jânio Quadros deu uma virada à esquerda, encantado com a ditadura de Castro em Cuba, com a condecoração de Ernesto Che Guevara, seis dias antes de sua renúncia, com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.
Com a renúncia de Jânio Quadros, assumiu a Presidência da República o Vice-presidente, João Goulart, do PTB. Àquela época, a eleição do presidente e do vice era separada. O vice de Jânio Quadros, Milton Campos, foi derrotado por João Goulart. Jânio, candidato a UDN, com apoio de outros partidos foi eleito com a maior votação da história brasileira, até 1960 – 5,6 milhões de votos; João Goulart foi eleito vice-presidente com 4,5 milhões.
As lideranças civis de direita, centro-direita e extrema-direita, tendo à frente os governadores de Minas Gerais, Magalhães Pinto, do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, ambos da UDN, e Ademar de Barros (PRP), de São Paulo, desenvolveram uma campanha junto à sociedade civil para a derrubada de João Goulart. Os militares deram apoio às lideranças civis e ao apelo de jornais importantes, como, por exemplo, O Globo, chegando ao golpe, movimento ou revolução de 64.
Passaram-se 54 anos. Em 2018, a história se repete. Todavia, agora a revolução veio pelas urnas, com a vitória esmagadora de Jair Messias Bolsonaro, de um partido nanico (Partido Social Liberal-PSL), com 55 milhões de votos, 11 milhões à frente do candidato derrotado.
A esquerda e a extrema esquerda – socialistas e comunistas – classificam o movimento de 64 e a eleição de Jair Bolsonaro como golpes, como fizeram com o impeachment constitucional de Dilma Rousseff.  Foi realmente um golpe em suas pretensões político-eleitoreiras de poder. O Globo, em 1964, ficou a favor do “golpe” militar; em 2018, ficou contra o “golpe” da eleição democrática de Jair Bolsonaro. Uma contradição que deve estar causando arrepios a Roberto Marinho, onde quer que ele esteja.
O Grupo Globo, que cresceu graças ao apoio da “ditadura” militar, pode estar definhando, quando atenta contra a inteligência e a vontade popular, que elegeu Jair Bolsonaro para liderar, democraticamente, uma revolução na máquina estatal e nas estratégias de governança. À sua declarada “guerra” ao presidente Bolsonaro, a Rede Globo continua destilando sobre os seus teleouvintes, as novelas onde os bordéis predominam e os BBBs, lixo internacional, elevam sua baixa audiência, à busca de patrocinadores que não têm responsabilidade social, líderes do capitalismo selvagem.
Curto e grosso: duas revoluções aconteceram no Brasil, a partir de 1964: uma à margem da Constituição (1964) e outra sob a proteção da Constituição (2018). Em ambas a maioria do povo foi vitorioso.

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