O Livro dos Espíritos, um dos pilares da Doutrina
Espírita, codificada por Allan
Kardec (1804/1869), foi originalmente publicado em Paris, em 1857. É uma
obra revolucionária para a humanidade. Ultrarrevolucionária para os tempos em
que foi lançada e revolucionaria, ainda nos alvores do século 21, a chamada
Nova Era.
Por essa obra
monumental de Kardec, nós espíritas cremos na imortalidade da alma ou espírito,
na reencarnação como processo educacional, na vida eterna. A vida é uma só, mas
o espírito vive várias experiências, em planos incontáveis de vida. São muitas
as reencarnações, milhares ou milhões, na longa trajetória do espírito em sua
jornada de volta ao seu Criador. Do mineral ao angelical.
Nas décadas
de 50 e 60 do século 19, época da Codificação do Espiritismo, o mundo físico da
Terra não conhecia o telefone (1876), a luz elétrica (1879), o automóvel
(1886), o rádio e a telegrafia sem fio (1896), a televisão (1924), o computador
(1945), os satélites artificiais (1957) e a internet (1969).
Nas
principais décadas da produção mediúnica de Chico Xavier (1910/2002)
– entre 30 e 70 do século 20 –, o nosso mundo já conhecia todos esses meios de
comunicação, estando a internet em fase inicial, somente para uso militar.
Houve, portanto, mudanças, no plano físico e no mundo espiritual, que
permitiram a implementação do Espiritismo, agora em terras brasileiras, para desenvolver
a obra de Kardec.
A imprensa,
contudo, indispensável à propagação do Espiritismo, em livros, periódicos e
folhetos, existia nas décadas da Codificação e evoluiu consideravelmente no
século passado. O livro e o periódico foram instrumentos notáveis para a
propagação do Espiritismo no mundo e no Brasil, em particular, para a obra
missionária de Chico Xavier. No século 21, surgem novas mídias, possibilitadas
pela Internet, mais libertárias e democráticas, como o e-book, os noticiários, os vídeos, por exemplo. Hoje, o rádio e a
televisão podem ser transmitidos pela Internet, com custos bem mais em conta
para a divulgação ampla do Espiritismo em todo o planeta.
O mundo
evoluiu e continua evoluindo, incessantemente, em todos os planos de vida. Como
o Espiritismo.
Kardec teve o
apoio de uma plêiade de Espíritos, entre os quais Emmanuel e São Luís, sob a
supervisão do Espírito Verdade, para a Codificação do Espiritismo. De acordo
com o Espírito
Irmão X ‒ Humberto de Campos (1886/1934) ‒ (CAMPOS,
Humberto de. Brasil, coração do mundo,
pátria do Evangelho / [psicografado por] Chico Xavier. Rio de Janeiro: FEB,
2008, p. 156), a
Espiritualidade Superior promoveu a reencarnação de espíritos missionários para
apoiarem Kardec em sua obra, “[...] nas individualidades de João Batista Roustaing
(1805-1879), que organizaria o trabalho da
fé; de Léon Denis (1846/1927),
que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne (1857/1926),
que apresentaria a estrada científica, e de Camille Flammarion
(1842/1925), que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das
paisagens celestes, cooperando assim na Codificação
kardequiana no Velho Mundo e dilatando-as com os necessários complementos.
A
participação de Roustaing é, ainda hoje, motivo de polêmica no meio espírita
brasileiro. Conta-se que a Federação
Espírita Brasileira (FEB) solicitou a Chico Xavier, a inclusão de Roustaing
nessa equipe. Consultado, Emmanuel acedeu, para não prejudicar a publicação da
obra, parte dos planos do Espiritismo para o Brasil.
A teoria da
vinda de Jesus em um corpo fluído, agênere ‒ do grego a, privado, e - géiné, géinomai,
gerar: que não foi gerado ‒, um espírito momentaneamente
materializado, assumindo as formas de uma pessoa viva, ao ponto de produzir
uma ilusão completa ‒, presente na
obra Os
Quatro Evangelhos, parece contrariar, pelo menos nessa questão, os
princípios da Doutrina Espírita. Kardec, na edição de junho de 1866 da Revista Espírita (Ano primeiro –
1958 / publicada sob a direção de Allan Kardec; [tradução de Evandro Noleto
Bezerra; (poesias traduzidas por Inaldo Lacerda Lima)]. – 4. Ed. – 2ª
reimpressão – Rio de Janeiro: FEB, 2009, p. 257), ao comentar a referida obra, diz que “até
nova ordem não daremos as suas teorias nem aprovação, nem desaprovação,
deixando ao tempo o cuidado de as sancionar ou as contraditar”, não se
posicionando “a favor ou contra essa teoria”, mas registrando que “ela é, pelo
menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errônea, faltando a base,
o edifício desabaria”.
Mais de
século e meio passados, Os Quatro
Evangelhos, de responsabilidade de Roustaing, continua gerando polêmica e
dividindo boa parte dos espíritas em torno de sua questão central: Jesus como
um agênere. A “sanção do controle universal”, preconizada por Kardec, ainda não
aconteceu. Assim, essas “opiniões pessoais dos Espíritos [...] não poderiam ser
consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita”. Parece mais uma
obra que veio para confundir, em vez de esclarecer, apoiar a Codificação.
A
dissenção no movimento espírita brasileiro, com a edição de Os Quatro
Evangelhos, de Roustaing, pela Federação
Espírita Brasileira, lembra a presença de Waldo Vieira (1932/2015)
junto a Chico Xavier, por curto período, e o seu brusco desligamento das
atividades mediúnicas, ao criar a Conscienciologia, um movimento dissidente do Espiritismo,
inicialmente identificado por Waldo Vieira com Projeciologia, de
cunho pseudo científico.
Chico Xavier teve
em Emmanuel
e em outros notáveis mentores, como Bezerra de Menezes
(1831/1900), Cairbar
Schutel (1868/1938), Eurípedes
Barsanulfo (1880/1918 e André Luiz
‒ Carlos Chagas (1879/1934)
‒, o “Repórter do Além” e sustentáculo para implantar e desenvolver a
Codificação em terras brasileiras. A Espiritualidade Superior cuidou para que
uma elite de espíritos superiores reencarnasse, antes, junto e depois da
reencarnação de Allan Kardec, como Chico Xavier, em solo brasileiro, para a
preparação do ambiente, o apoio e a consolidação da mensagem espírita no Brasil
e no mundo. É importante ressaltar o pioneirismo de Bezerra de Menezes, Cairbar
Schutel, Eurípedes Barsanulfo e Peixotinho (1905/1966),
entre outros, cada um com ênfase em área específica, que vieram preparar o
caminho para que o Codificador, agora no corpo de Chico Xavier, pudesse desenvolver
a sua obra, no Brasil, .
A atuação de Bezerra de Menezes na
organização e presidência da Federação Espírita Brasileira, a FEB, merece
destaque. Assume a presidência da FEB, em 1895, “[...] com poderes absolutos, dadas as
circunstâncias, e começa o trabalho de reconstrução, imprimindo à Instituição a
orientação doutrinário-evangélica na qual ela se manteve firmemente até nossos
dias. Equilibrou a situação financeira, para atender aos encargos e serviços, e
reorganizou todos os trabalhos da Casa”.
A exemplo de Kardec,
Bezerra de Menezes emprestou a sua credibilidade como homem público e médico
conceituado para que o Espiritismo, em terras brasileiras, fosse recepcionado
com seriedade, apesar da oposição da hierarquia da Igreja Católica. A Bezerra
de Menezes foi entregue essa nobre missão, cumprida integralmente.
Devo realçar
a importância fundamental da Federação Espírita Brasileira na difusão da obra
mais significativa de Chico Xavier, Emmanuel e André Luiz. O prestígio e a
seriedade da FEB deram credibilidade às mensagens psicografadas por Chico, no
início, um “ilustre desconhecido” médium de Pedro Leopoldo. Sem o apoio da FEB,
penso que a lídima mensagem espírita, veiculada por Chico Xavier, não teria
alcançado o público que atingiu, dando continuidade à obra de Kardec. A
publicação pela FEB dos livros e das mensagens esparsas em O Reformador é um marco para a divulgação da obra mediúnica de
Chico Xavier. Foram decisivos para a publicação dessas obras pioneiras os
presidentes da FEB Guillon
Ribeiro (1875/1943) e Wantuil de
Freitas (1895/1917), que conduziram os destinos da Federação da década de
30 até o final da década de 60 do século 20.
Sobre Guillon
Ribeiro, Ramiro Gama (1898/1981),
no livro acima citado, cuja 1ª edição é do início da década de 60 do século 20,
diz que numa conversa com Chico Xavier este “particularizou que atravessava uma
fase dolorosa no seu mediunato”. O dr. Guillon soube e mandou-lhe uma carta
“que viveu com outras, entre seus papeis de estima”. Segundo Ramiro, a carta
foi escrita “com a pena do coração e a tinta do pranto, pois que, ao recebê-la,
(Chico) sentiu-se afagado, esclarecido, emocionado, finalmente, alegrado com a
tarefa árdua que realizava, em nome do Senhor” (GAMA, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier – Biografia
do Médium contendo 32 ilustrações a cores.
São Paulo: Lake, 20ª ed., 2006).
Também Manuel
Quintão, que foi presidente da FEB por várias vezes, entre 1915 e 1929, além de
redator-chefe (1927/1928) e diretor (entre 1915 e 1930, em diversos períodos) de
O Reformador,
foi um dos que esteve ao lado do Chico, nos primeiros momentos de seu
mediunato.
Kardec e Chico
Xavier, o mesmo Espírito, codificaram, em Paris, na França, e desenvolveram no
Espiritismo no Brasil, inicialmente, em Pedro Leopoldo e, mais tarde, em Uberaba,
cidades das Minas Gerais. Roustaing e Waldo Vieira foram meros personagens que
não contribuíram, como o esperado por Jesus, para um efetivo e permanente apoio
às atividades de Allan Kardec e Chico Xavier, estes os atores principais dessa
jornada evolutiva de nosso planeta.
(Crédito da imagem: < https://cinemanafloresta.com.br/encontro-de-allan-kardec-com-chico-xavier/>
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