Nos anos 30, o Rio Paraíba do Sul era caudaloso. Alimentava hidrelétricas
e as plantações de arroz em suas margens. E era rico na diversidade de peixes,
que alimentavam as populações ribeirinhas e era fonte de renda para pescadores.
Nasci, em 1936, perto desse rio, na Fazenda da Serra, próxima ao povoado do
Porto do Tuta, que fica às margens do Paraíba do Sul.
No início dos anos 40, minha família passou a residir à beira do rio,
onde meu pai, Henrique Luiz Frauches, estabeleceu-se com um armazém. À época
chamavam de “venda”. Eu não tinha vocação para pescaria, mas ficava mirando as
águas rolarem, mansas ou agitadas, rumo ao mar. Não sei o que pensava, naquela
tenra idade, mas a minha imagem extasiada com aquela cena simples e bucólica
está arquivada em minha memória sentimental. E às vezes vem à tona, como agora.
Uma frutinha saborosa, que não vejo e nem como há décadas, o ingá, faz a
salivação aumentar, quando relembro aqueles “tempos que não voltam mais”.
Lembro-me trepado nos ingazeiros, em galhos que ficavam em cima das águas. Eram
dois prazeres: o ingá e as águas rolando, rolando...
Antes, meu pai teve uma “venda” na fazenda de Oto Ruback, que ficava do
outro lado do rio, no município de Pirapetinga, nas Minas Gerais. A cidade de
Pirapetinga ficava mais perto de nossa residência do que Cantagalo (RJ), tanto
na fazenda quanto no Porto do Tuta. A travessia do rio, nas idas e vindas para
visitar meus avós − paternos e maternos − era numa barcaça rústica, que
lentamente cortava as correntezas e atracava na outra margem. O vento no rosto,
os cabelos ao léu. Os pensamentos voavam longe.
Quando meu pai teve que voltar para a Fazenda da Serra, a fim de
administrá-la, em virtude do desencarne de meu avô, Américo Fernandes Frauches,
eu não me afastei do Paraíba do Sul. Diariamente, durante três anos, estava no
Porto do Tuta, para os estudos primários, na Escola dirigida pela minha
inesquecível mestra, Neli Rodrigues Moreira. O “da Costa” veio posteriormente,
quando ela se casou com o meu tio e amigo Acyr Ferreira da Costa, irmão de
minha mãe, Etelvina (Telva). O Rio Paraíba do Sul estava novamente em minha
vida. Ainda permanecia nela, quando visitávamos parentes na sede do distrito
São Sebastião do Paraíba ou nas festividades do padroeiro da vila.
Há anos estou em Brasília, com vários rios alimentando a barragem do
Paranoá, construída para amenizar a secura do clima do Distrito Federal. Rios
poluídos, como o Paraíba do Sul. Não há mais águas límpidas, transparentes, que
nos permitam apreciar os peixinhos nadando felizes. Enquanto não aparece um
traiçoeiro anzol...
O trecho do Rio Paraíba do Sul, entre a vila de São Sebastião do Paraíba
e a cidade de Itaocara (RJ), está ameaçado, há anos, de virar uma poluída
barragem para mais uma hidrelétrica, em tempos de energia solar, eólica e
outras. A insanidade ecológica de nossos governantes ignora o crime que estão
permitindo ocorrer, com a ganância de investidores, como os responsáveis pelos
desastres de Mariana e Brumadinho (MG).
Não. Não vou permitir a poluição de minhas bucólicas reminiscências dos
tempos de fruição das delícias do Paraíba, com a poluição dos rios e a ira
contra uma barragem desprezível.
O Rio Paraíba do Sul foi um rio que passou e ficou em minha vida. Mesmo
na distante e fria Brasília...
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