domingo, 5 de maio de 2019

Paraíba do Sul: um rio que ficou em minha vida


Nos anos 30, o Rio Paraíba do Sul era caudaloso. Alimentava hidrelétricas e as plantações de arroz em suas margens. E era rico na diversidade de peixes, que alimentavam as populações ribeirinhas e era fonte de renda para pescadores. Nasci, em 1936, perto desse rio, na Fazenda da Serra, próxima ao povoado do Porto do Tuta, que fica às margens do Paraíba do Sul.

No início dos anos 40, minha família passou a residir à beira do rio, onde meu pai, Henrique Luiz Frauches, estabeleceu-se com um armazém. À época chamavam de “venda”. Eu não tinha vocação para pescaria, mas ficava mirando as águas rolarem, mansas ou agitadas, rumo ao mar. Não sei o que pensava, naquela tenra idade, mas a minha imagem extasiada com aquela cena simples e bucólica está arquivada em minha memória sentimental. E às vezes vem à tona, como agora. Uma frutinha saborosa, que não vejo e nem como há décadas, o ingá, faz a salivação aumentar, quando relembro aqueles “tempos que não voltam mais”. Lembro-me trepado nos ingazeiros, em galhos que ficavam em cima das águas. Eram dois prazeres: o ingá e as águas rolando, rolando...
Antes, meu pai teve uma “venda” na fazenda de Oto Ruback, que ficava do outro lado do rio, no município de Pirapetinga, nas Minas Gerais. A cidade de Pirapetinga ficava mais perto de nossa residência do que Cantagalo (RJ), tanto na fazenda quanto no Porto do Tuta. A travessia do rio, nas idas e vindas para visitar meus avós − paternos e maternos − era numa barcaça rústica, que lentamente cortava as correntezas e atracava na outra margem. O vento no rosto, os cabelos ao léu. Os pensamentos voavam longe.
Quando meu pai teve que voltar para a Fazenda da Serra, a fim de administrá-la, em virtude do desencarne de meu avô, Américo Fernandes Frauches, eu não me afastei do Paraíba do Sul. Diariamente, durante três anos, estava no Porto do Tuta, para os estudos primários, na Escola dirigida pela minha inesquecível mestra, Neli Rodrigues Moreira. O “da Costa” veio posteriormente, quando ela se casou com o meu tio e amigo Acyr Ferreira da Costa, irmão de minha mãe, Etelvina (Telva). O Rio Paraíba do Sul estava novamente em minha vida. Ainda permanecia nela, quando visitávamos parentes na sede do distrito São Sebastião do Paraíba ou nas festividades do padroeiro da vila.
Há anos estou em Brasília, com vários rios alimentando a barragem do Paranoá, construída para amenizar a secura do clima do Distrito Federal. Rios poluídos, como o Paraíba do Sul. Não há mais águas límpidas, transparentes, que nos permitam apreciar os peixinhos nadando felizes. Enquanto não aparece um traiçoeiro anzol...
O trecho do Rio Paraíba do Sul, entre a vila de São Sebastião do Paraíba e a cidade de Itaocara (RJ), está ameaçado, há anos, de virar uma poluída barragem para mais uma hidrelétrica, em tempos de energia solar, eólica e outras. A insanidade ecológica de nossos governantes ignora o crime que estão permitindo ocorrer, com a ganância de investidores, como os responsáveis pelos desastres de Mariana e Brumadinho (MG).
Não. Não vou permitir a poluição de minhas bucólicas reminiscências dos tempos de fruição das delícias do Paraíba, com a poluição dos rios e a ira contra uma barragem desprezível.
O Rio Paraíba do Sul foi um rio que passou e ficou em minha vida. Mesmo na distante e fria Brasília...

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