domingo, 12 de maio de 2019

Os Pretos-Velhos e a filosofia cristã


A imigração dos africanos
É devagar.

É devagarinho.
Quem caminha com Preto
Nunca fica no caminho.
(De um ponto cantado dos Pretos-Velhos)


Jesus − conta-nos o Irmão X (Humberto de Campos), pela mediunidade de Chico Xavier −, procurado por Ismael, mentor espiritual de nossa pátria, que demonstrava preocupação ante os desvios da colonização brasileira com o uso da escravidão dos negros africanos pelos portugueses, afirmou-lhe que “havia determinado que a Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões africanas”.
Para plantar as sementes vivas do Evangelho no Coração do Mundo – o Brasil –, Jesus contava com a participação dos negros africanos, espíritos humildes reencarnados na África. Mas libertos.
E os negros foram trazidos para o Brasil... Mas como escravos. Uma escolha sombria da Coroa portuguesa, em conluio com traficantes de seres humanos.
... E, aqui, “foram humilhados e abatidos... O Senhor, porém, lhes sustenta o coração oprimido, iluminando o calvário dos seus indivisíveis padecimentos com a lâmpada suave do seu inesgotável amor. Através das linhas tortuosas dos homens, realizou Jesus seus grandes e benditos objetivos, porque os negros das costas africanas foram uma das pedras angulares do monumento evangélico no Coração do Mundo. Sobre os seus ombros flagelados, carrearam-se quase todos os elementos materiais para a organização física do Brasil e, do manancial de humildade de seus corações resignados e tristes, nasceram lições comovedoras, imunizando todos os espíritos contra os excessos do imperialismo e do orgulho injustificáveis das outras nações do planeta, dotando-se a alma brasileira dos mais belos sentimentos de fraternidade, de ternura e de perdão”.
A reencarnação de brancos como negros
Paralelamente à imigração dos negros de África, recomenda Jesus a Ismael que promova a reencarnação, como negros, no Brasil, de Espíritos dotados de sabedoria, mas, ainda, necessitados de provas no campo do Amor, como condição para a regeneração.
Assim, Ismael arrebanhou, nas regiões inferiores da crosta terrestre, espíritos que suplicaram essa prova a Jesus: “antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e revoltados”. Brancos orgulhosos encarnados como negros. Um processo educacional divino para a construção da humildade. A pedagogia da reencarnação.
Como negros e escravos, “buscaram as pérolas da humildade e do sentimento com que se apresentaram mais tarde a Jesus, no dia que lhes raiou, da redenção e glória”.
O negro como Guia Espiritual
Os espíritos reencarnados, vindos da África, e os desencarnados, atraídos das regiões espirituais inferiores do planeta, pela afinidade adquirida ao longo dos anos como escravos, no Brasil, reuniram-se, no plano astral brasileiro, e criaram a colônia espiritual, conhecida como Aruanda, que mantém vilas, postos e subpostos de socorro e assistência espiritual, em alguma dimensão do Brasil. Com a mesma finalidade, outras estâncias espirituais existem.
Encarnados ou desencarnados, continuaram a cumprir as instruções do Alto, laborando pela implantação do Amor e do Perdão na Pátria do Evangelho.
Feita a aliança do Amor com a Sabedoria, duas asas que conduzem o espírito à presença de Deus, segundo Emmanuel, guia espiritual de Chico Xavier, trataram de criar um movimento religioso, pelo qual, através da mediunidade, pudessem prolongar o trabalho iniciado quando encarnados, como escravos: servir, amando e perdoando, sempre. Na chamada “mesa branca kardecista” ou nas reuniões espíritas eram rechaçados e expulsos como obsessores ou impostores. Os centros espíritas só admitiam espíritos de brancos. Um preconceito racial que mancha o Espiritismo no Brasil. A estratégia era criar condições para a manifestação desses espíritos, para o cumprimento das tarefas que lhes foi confiada por Jesus, via Ismael.
Estavam lançadas as sementes da Umbanda. E com esta, o trabalho humilde dos Pretos-Velhos, como humildes viveram, enquanto encarnados, como escravos do branco.
Ao longo dessa jornada, os Pretos-Velhos têm desenvolvido intensa atividade, junto a encarnados e desencarnados, arrebanhando ovelhas para o Pastor Divino.
Os Pretos-Velhos, consoladores ou magistas, tendo vivenciado o perdão, a tolerância, a resignação e o amor fraterno e universal, adquiriram as condições espirituais necessárias para empreenderem a tarefa evangelizadora no Brasil.
Ninguém, como eles, quando encarnados como negros escravos, viveu, com tanto realismo, as Bem-aventuranças ensinadas por Jesus...
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados...
Bem-aventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados...
Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que deles é o reino dos céus...
Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra...
Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus...
Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia...
Os aflitos, os famintos, os perseguidos, os pobres de espírito (os simples), os puros de coração (de sentimentos), os brandos, os pacíficos e os misericordiosos são os negros escravos que sofreram resignadamente todas as provações que lhes foram colocadas no caminho, de acordo com a Lei de Causa e Efeito. Tiveram oportunidade de provar sua fé, sua esperança e sua submissão aos desígnios da Lei Divina. E, hoje, são os Pretos-Velhos consoladores e fraternos, ou os magistas, que “baixam” nos terreiros de Umbanda ou, quando é permitido, nas reuniões espíritas. Viveram e pregam a filosofia cristã do “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
São os evangelizadores e consoladores do povo, os apóstolos do Cristo a pregarem, pelos médiuns de amor, coragem e boa vontade, a mensagem viva da Fé, do Amor e da Caridade. São os mensageiros do Cristo para a convocação feita por Jesus e registrada pelo evangelista Mateus:
Vinda a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo.
Notas
Os trechos entre aspas foram extraídos do livro Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Irmão X ao médium Chico Xavier, na cidade de Pedro Leopoldo (MG), em 1938 (Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1977).
A imagem do Preto-Velho é obra do artista Araken Álvaro, do Rio de Janeiro.
13 de maio é o Dia do Preto-Velho.

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