A imigração dos africanos
É devagar.
É devagarinho.
Quem caminha com Preto
Nunca fica no caminho.
(De um ponto cantado dos Pretos-Velhos)
Jesus −
conta-nos o Irmão X (Humberto de Campos), pela mediunidade de Chico Xavier −,
procurado por Ismael, mentor espiritual de nossa pátria, que demonstrava
preocupação ante os desvios da colonização brasileira com o uso da escravidão
dos negros africanos pelos portugueses, afirmou-lhe que “havia determinado que
a Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a
colaboração dos povos sofredores das regiões africanas”.
Para
plantar as sementes vivas do Evangelho no Coração do Mundo – o Brasil –, Jesus
contava com a participação dos negros africanos, espíritos humildes
reencarnados na África. Mas libertos.
E os
negros foram trazidos para o Brasil... Mas como escravos. Uma escolha sombria da
Coroa portuguesa, em conluio com traficantes de seres humanos.
... E,
aqui, “foram humilhados e abatidos... O Senhor, porém, lhes sustenta o coração
oprimido, iluminando o calvário dos seus indivisíveis padecimentos com a
lâmpada suave do seu inesgotável amor. Através das linhas tortuosas dos homens,
realizou Jesus seus grandes e benditos objetivos, porque os negros das costas
africanas foram uma das pedras angulares do monumento evangélico no Coração do
Mundo. Sobre os seus ombros flagelados, carrearam-se quase todos os elementos
materiais para a organização física do Brasil e, do manancial de humildade de
seus corações resignados e tristes, nasceram lições comovedoras, imunizando
todos os espíritos contra os excessos do imperialismo e do orgulho
injustificáveis das outras nações do planeta, dotando-se a alma brasileira dos
mais belos sentimentos de fraternidade, de ternura e de perdão”.
A reencarnação de brancos como negros
Paralelamente
à imigração dos negros de África, recomenda Jesus a Ismael que promova a
reencarnação, como negros, no Brasil, de Espíritos dotados de sabedoria, mas,
ainda, necessitados de provas no campo do Amor, como condição para a
regeneração.
Assim,
Ismael arrebanhou, nas regiões inferiores da crosta terrestre, espíritos que
suplicaram essa prova a Jesus: “antigos batalhadores das cruzadas, senhores
feudais da Idade Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e
revoltados”. Brancos orgulhosos encarnados como negros. Um processo educacional
divino para a construção da humildade. A pedagogia da reencarnação.
Como
negros e escravos, “buscaram as pérolas da humildade e do sentimento com que se
apresentaram mais tarde a Jesus, no dia que lhes raiou, da redenção e glória”.
O negro como Guia Espiritual
Os
espíritos reencarnados, vindos da África, e os desencarnados, atraídos das
regiões espirituais inferiores do planeta, pela afinidade adquirida ao longo
dos anos como escravos, no Brasil, reuniram-se, no plano astral brasileiro, e
criaram a colônia espiritual, conhecida como Aruanda, que mantém vilas, postos
e subpostos de socorro e assistência espiritual, em alguma dimensão do Brasil. Com
a mesma finalidade, outras estâncias espirituais existem.
Encarnados
ou desencarnados, continuaram a cumprir as instruções do Alto, laborando pela
implantação do Amor e do Perdão na Pátria do Evangelho.
Feita
a aliança do Amor com a Sabedoria, duas asas que conduzem o espírito à presença
de Deus, segundo Emmanuel, guia espiritual de Chico Xavier, trataram de criar
um movimento religioso, pelo qual, através da mediunidade, pudessem prolongar o
trabalho iniciado quando encarnados, como escravos: servir, amando e perdoando,
sempre. Na chamada “mesa branca kardecista” ou nas reuniões espíritas eram
rechaçados e expulsos como obsessores ou impostores. Os centros espíritas só
admitiam espíritos de brancos. Um preconceito racial que mancha o Espiritismo
no Brasil. A estratégia era criar condições para a manifestação desses
espíritos, para o cumprimento das tarefas que lhes foi confiada por Jesus, via
Ismael.
Estavam
lançadas as sementes da Umbanda. E com esta, o trabalho humilde dos
Pretos-Velhos, como humildes viveram, enquanto encarnados, como escravos do
branco.
Ao
longo dessa jornada, os Pretos-Velhos têm desenvolvido intensa atividade, junto
a encarnados e desencarnados, arrebanhando ovelhas para o Pastor Divino.
Os
Pretos-Velhos, consoladores ou magistas, tendo vivenciado o perdão, a
tolerância, a resignação e o amor fraterno e universal, adquiriram as condições
espirituais necessárias para empreenderem a tarefa evangelizadora no Brasil.
Ninguém, como eles, quando encarnados como negros escravos, viveu, com
tanto realismo, as Bem-aventuranças ensinadas por Jesus...
Bem-aventurados os
aflitos, porque serão consolados...
Bem-aventurados os
famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados...
Bem-aventurados os pobres
de espírito, pois que deles é o reino dos céus...
Bem-aventurados os que
são brandos, porque possuirão a Terra...
Bem-aventurados os
pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus...
Bem-aventurados os que
são misericordiosos, porque obterão misericórdia...
Os aflitos, os famintos, os perseguidos, os pobres de espírito (os
simples), os puros de coração (de sentimentos), os brandos, os pacíficos e os
misericordiosos são os negros escravos que sofreram resignadamente todas as
provações que lhes foram colocadas no caminho, de acordo com a Lei de Causa e
Efeito. Tiveram oportunidade de provar sua fé, sua esperança e sua submissão
aos desígnios da Lei Divina. E, hoje, são os Pretos-Velhos consoladores e
fraternos, ou os magistas, que “baixam” nos terreiros de Umbanda ou, quando é
permitido, nas reuniões espíritas. Viveram e pregam a filosofia cristã do
“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
São os evangelizadores e consoladores do povo, os apóstolos do Cristo a
pregarem, pelos médiuns de amor, coragem e boa vontade, a mensagem viva da Fé,
do Amor e da Caridade. São os mensageiros do Cristo para a convocação feita por
Jesus e registrada pelo evangelista Mateus:
Vinda a mim, todos vós que estais aflitos e
sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei
comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas
almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo.
Notas
Os
trechos entre aspas foram extraídos do livro Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito
Irmão X ao médium Chico Xavier, na cidade de Pedro Leopoldo (MG), em 1938 (Rio
de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1977).
A
imagem do Preto-Velho é obra do artista Araken Álvaro, do Rio de Janeiro.
13 de
maio é o Dia do Preto-Velho.
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