domingo, 26 de maio de 2019

Herculanum: a descoberta do Espiritismo


Em 1950, estava eu residindo, com meus pais − Henrique e Telva −, em Cantagalo, cidade situada no centro-norte fluminense. Era minha terra natal, pois nasci no 4º Distrito do município – São Sebastião do Paraíba. No dia 27 de outubro, quando completava catorze anos de idade, recebi de presente de uma amiga dos meus pais o livro Herculanum, ditado pelo Espírito John Wilmont Rochester – o Conde Rochester – à médium mecânica russa Wera Krijanoswsky. Eu era católico apostólico romano, frequentava a Igreja Matriz, ia à missa aos domingos, confessava e comungava. Cheguei a ministrar aula de catecismo e auxiliar o sacristão em várias missas. Mas o livro mudaria o meu modo de ver e sentir a vida, embora continuasse católico.
Herculanum – narra a tragédia da cidade italiana de Herculanum (Herculano, a cidade de Hércules) ou Herculaneum (Ercolano em italiano), situada na região de Campânia, na província de Nápoles, próxima ao Monte Vesúvio, com a sua extinção pelo vulcão Vesúvio, em 79 d.C. O vulcão atingiu outras cidades próximas, como Pompeia. Herculanum tinha quatro mil habitantes. Nas escavações em suas ruínas, a partir de 1738,  foram encontrados 340 esqueletos humanos.
O livro trata do drama de famílias quando encarnadas, vivendo na cidade de Hércules, e após o desencarne, em alguma dimensão do plano espiritual. É aí que entra o Espiritismo, codificado por Allan Kardec, pseudônimo do professor, pesquisador e contabilista Hippolyte Léon Denizard Rivail. Em 1857, foi publicada a 1ª edição de O Livro dos Espíritos.
A chamada “vida após a morte” passou, para mim, aos catorze anos de idade, ser algo concreto, verdadeiro. A história do romance mediúnico levou-me a reflexões sobre a Vida: uma, que acaba com a morte do corpo físico, e outra, que continua após esse evento traumático para bilhões de pessoas. A certeza da eternidade do Espírito, criado à imagem e semelhança do Criador, que nasce e renasce (reencarna) infinitamente, mudou completamente a minha visão sobre a Vida.
Ao longo dos anos, já na maturidade, as leituras, as palestras, as sessões mediúnicas (espíritas ou umbandistas) passaram a conduzir o meu processo de autoconhecimento e autoeducação, o “conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará” (João 8:32). O conhecimento da verdade sobre si mesmo indefinidamente.
Ao ver ontem, 25 de maio de 2019, o filme Kardec, que narra a história de Allan Kardec na fase inicial de suas pesquisas e imediatamente após a publicação da 1ª edição de O Livro dos Espíritos, não pude deixar de me lembrar do meu primeiro contato com essa doutrina transformadora, que desmistifica o materialismo e nos revela um processo educacional divino nas sucessivas encarnações do Espírito.
Passados quase setenta anos, revejo a minha trajetória nesta encarnação e constato que ainda precisarei de milhares de outras para conhecer integralmente a minha verdade e viver o Amor incondicional. Mas sigo em frente, tendo na memória uma afirmação de Rochester: “O homem tende sempre a subir e atingir a verdade noutra direção.

domingo, 19 de maio de 2019

Regime acadêmico & sistema de crédito: flexibilização


A LDB é omissa quanto aos regimes acadêmicos que podem ser adotados pelas instituições de ensino superior (IES), ao contrário da Reforma Universitária de 68, que determinou a implantação do regime de matrícula por disciplina, com pré-requisitos, e a extinção do regime seriado. É da competência de cada IES, portanto, fixar o regime acadêmico a ser adotado em seus cursos e programas de educação superior.
O regime de matrícula pode ser seriado ou por disciplina.
O regime seriado é caracterizado pela oferta de disciplinas fixas, por série. A matrícula é na série e, não, na disciplina. A duração da série pode ser anual, semestral, quadrimestral, trimestral, bimestral.
O regime de matrícula por disciplina caracteriza-se pela oferta de disciplinas, com pré-requisitos, à escolha do aluno.  A diferença é que o aluno é quem escolhe as disciplinas a serem cursadas, retiradas do elenco fixado pela IES, obedecidos os pré-requisitos estabelecidos pelo órgão próprio da instituição, atendidas as diretrizes curriculares nacionais e o disposto no Projeto Pedagógico de Curso (PPC).
Existe, ainda, o regime misto. Adota um bloco fixo de disciplinas por período letivo e permite a matrícula em disciplinas isoladas. Por exemplo: três disciplinas em bloco, obrigatórias, e duas à escolha do estudante. Neste caso, o aluno pode optar por não se matricular nas duas disciplinas ou simplesmente em uma.
O sistema de controle de integralização curricular pode ser o de crédito ou carga horária, para qualquer dos regimes adotados.
A unidade de crédito pode variar de IES para IES. As instituições públicas geralmente adotam 15h como a unidade de crédito para as aulas teóricas; 30h para as aulas práticas e 45h para estágios curriculares. Essa prática teve origem na tradição de que o professor era o centro do processo ensino-aprendizagem. Nos tempos atuais não mais se justifica essa discriminação, tendo o educando como centro do processo de aprendizagem. A unidade de crédito pode, portanto, ser a mesma para qualquer componente curricular.
As IES da livre iniciativa têm adotado, alternativamente, três medidas de crédito: 15h, 18h e 20h, dependendo da quantidade de semanas por módulo semestral.
O sistema de crédito ficou muito ligado ao regime de matrícula por disciplina, introduzido, no ensino superior brasileiro, pela Reforma Universitária de 68. É muito comum confundir-se “regime de matrícula” (seriado, por disciplina ou misto) por “sistema de crédito”, uma simples contabilidade acadêmica. Mas nada impede que o “sistema” seja adotado por qualquer dos “regimes”.
O formato dos períodos letivos independe, portanto, do regime acadêmico adotado. O planejamento desses períodos ou módulos está sujeito, porém, ao cumprimento do mínimo de duzentos dias letivos, fixado pelo art. 47 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, a LDB – “Art. 47. Na educação superior, o ano letivo regular, independente do ano civil, tem, no mínimo, duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo, excluído o tempo reservado aos exames finais, quando houver.−. Ou seja, o ano letivo pode ter um só período letivo (anual) ou vários períodos letivos (módulos), mas o ano letivo deverá ter um mínimo de duzentos dias de “trabalho acadêmico efetivo”. É uma escolha de cada IES, no uso de sua autonomia.
A grande maioria das IES tem mantido a tradição de períodos letivos anuais ou semestrais, variando o regime acadêmico (seriado, matrícula por disciplina ou misto). Períodos letivos com duração inferior a um semestre letivo são adotados por poucas IES, especialmente, para a oferta de cursos superiores de tecnologia, para a certificação por módulos, permitida pelas diretrizes curriculares gerais para esses tipos de cursos de graduação.
Os módulos bimestrais são adequados para as IES que possuem autonomia (centros universitários e universidades), para que o fluxo de ingresso de alunos seja contínuo (processos seletivos bimestrais ou trimestrais) e para a fixação da oferta de cursos e vagas de acordo com a demanda. A demanda deve cair ao longo do ano e mais acentuadamente nos bimestres ou trimestres finais. Pode, ainda, preencher as vagas anuais e distribuí-las pelos módulos.
Há, também, aspectos pedagógicos positivos na oferta de disciplinas em blocos bimestrais, quando a aprendizagem pode ser concentrada em duas ou três disciplinas, sendo o ensino menos dispersivo. Nos regimes anuais e semestrais a quantidade de disciplinas ofertadas por período letivo varia de cinco a dez, pulverizando o processo de aprendizagem. Algumas metodologias ativas, como, por exemplo, o PBL (Problem Based Learning), Aprendizagem Baseada em Problemas, podem exigir módulos bimestrais ou trimetrais.
A oferta da educação a distância (EAD) e do ensino semipresencial ou misto não exime a IES de cumprir o ano letivo de duzentos dias de trabalho acadêmico efetivo.


domingo, 12 de maio de 2019

Os Pretos-Velhos e a filosofia cristã


A imigração dos africanos
É devagar.

É devagarinho.
Quem caminha com Preto
Nunca fica no caminho.
(De um ponto cantado dos Pretos-Velhos)


Jesus − conta-nos o Irmão X (Humberto de Campos), pela mediunidade de Chico Xavier −, procurado por Ismael, mentor espiritual de nossa pátria, que demonstrava preocupação ante os desvios da colonização brasileira com o uso da escravidão dos negros africanos pelos portugueses, afirmou-lhe que “havia determinado que a Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões africanas”.
Para plantar as sementes vivas do Evangelho no Coração do Mundo – o Brasil –, Jesus contava com a participação dos negros africanos, espíritos humildes reencarnados na África. Mas libertos.
E os negros foram trazidos para o Brasil... Mas como escravos. Uma escolha sombria da Coroa portuguesa, em conluio com traficantes de seres humanos.
... E, aqui, “foram humilhados e abatidos... O Senhor, porém, lhes sustenta o coração oprimido, iluminando o calvário dos seus indivisíveis padecimentos com a lâmpada suave do seu inesgotável amor. Através das linhas tortuosas dos homens, realizou Jesus seus grandes e benditos objetivos, porque os negros das costas africanas foram uma das pedras angulares do monumento evangélico no Coração do Mundo. Sobre os seus ombros flagelados, carrearam-se quase todos os elementos materiais para a organização física do Brasil e, do manancial de humildade de seus corações resignados e tristes, nasceram lições comovedoras, imunizando todos os espíritos contra os excessos do imperialismo e do orgulho injustificáveis das outras nações do planeta, dotando-se a alma brasileira dos mais belos sentimentos de fraternidade, de ternura e de perdão”.
A reencarnação de brancos como negros
Paralelamente à imigração dos negros de África, recomenda Jesus a Ismael que promova a reencarnação, como negros, no Brasil, de Espíritos dotados de sabedoria, mas, ainda, necessitados de provas no campo do Amor, como condição para a regeneração.
Assim, Ismael arrebanhou, nas regiões inferiores da crosta terrestre, espíritos que suplicaram essa prova a Jesus: “antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e revoltados”. Brancos orgulhosos encarnados como negros. Um processo educacional divino para a construção da humildade. A pedagogia da reencarnação.
Como negros e escravos, “buscaram as pérolas da humildade e do sentimento com que se apresentaram mais tarde a Jesus, no dia que lhes raiou, da redenção e glória”.
O negro como Guia Espiritual
Os espíritos reencarnados, vindos da África, e os desencarnados, atraídos das regiões espirituais inferiores do planeta, pela afinidade adquirida ao longo dos anos como escravos, no Brasil, reuniram-se, no plano astral brasileiro, e criaram a colônia espiritual, conhecida como Aruanda, que mantém vilas, postos e subpostos de socorro e assistência espiritual, em alguma dimensão do Brasil. Com a mesma finalidade, outras estâncias espirituais existem.
Encarnados ou desencarnados, continuaram a cumprir as instruções do Alto, laborando pela implantação do Amor e do Perdão na Pátria do Evangelho.
Feita a aliança do Amor com a Sabedoria, duas asas que conduzem o espírito à presença de Deus, segundo Emmanuel, guia espiritual de Chico Xavier, trataram de criar um movimento religioso, pelo qual, através da mediunidade, pudessem prolongar o trabalho iniciado quando encarnados, como escravos: servir, amando e perdoando, sempre. Na chamada “mesa branca kardecista” ou nas reuniões espíritas eram rechaçados e expulsos como obsessores ou impostores. Os centros espíritas só admitiam espíritos de brancos. Um preconceito racial que mancha o Espiritismo no Brasil. A estratégia era criar condições para a manifestação desses espíritos, para o cumprimento das tarefas que lhes foi confiada por Jesus, via Ismael.
Estavam lançadas as sementes da Umbanda. E com esta, o trabalho humilde dos Pretos-Velhos, como humildes viveram, enquanto encarnados, como escravos do branco.
Ao longo dessa jornada, os Pretos-Velhos têm desenvolvido intensa atividade, junto a encarnados e desencarnados, arrebanhando ovelhas para o Pastor Divino.
Os Pretos-Velhos, consoladores ou magistas, tendo vivenciado o perdão, a tolerância, a resignação e o amor fraterno e universal, adquiriram as condições espirituais necessárias para empreenderem a tarefa evangelizadora no Brasil.
Ninguém, como eles, quando encarnados como negros escravos, viveu, com tanto realismo, as Bem-aventuranças ensinadas por Jesus...
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados...
Bem-aventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados...
Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que deles é o reino dos céus...
Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra...
Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus...
Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia...
Os aflitos, os famintos, os perseguidos, os pobres de espírito (os simples), os puros de coração (de sentimentos), os brandos, os pacíficos e os misericordiosos são os negros escravos que sofreram resignadamente todas as provações que lhes foram colocadas no caminho, de acordo com a Lei de Causa e Efeito. Tiveram oportunidade de provar sua fé, sua esperança e sua submissão aos desígnios da Lei Divina. E, hoje, são os Pretos-Velhos consoladores e fraternos, ou os magistas, que “baixam” nos terreiros de Umbanda ou, quando é permitido, nas reuniões espíritas. Viveram e pregam a filosofia cristã do “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
São os evangelizadores e consoladores do povo, os apóstolos do Cristo a pregarem, pelos médiuns de amor, coragem e boa vontade, a mensagem viva da Fé, do Amor e da Caridade. São os mensageiros do Cristo para a convocação feita por Jesus e registrada pelo evangelista Mateus:
Vinda a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo.
Notas
Os trechos entre aspas foram extraídos do livro Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, ditado pelo Espírito Irmão X ao médium Chico Xavier, na cidade de Pedro Leopoldo (MG), em 1938 (Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1977).
A imagem do Preto-Velho é obra do artista Araken Álvaro, do Rio de Janeiro.
13 de maio é o Dia do Preto-Velho.

domingo, 5 de maio de 2019

Paraíba do Sul: um rio que ficou em minha vida


Nos anos 30, o Rio Paraíba do Sul era caudaloso. Alimentava hidrelétricas e as plantações de arroz em suas margens. E era rico na diversidade de peixes, que alimentavam as populações ribeirinhas e era fonte de renda para pescadores. Nasci, em 1936, perto desse rio, na Fazenda da Serra, próxima ao povoado do Porto do Tuta, que fica às margens do Paraíba do Sul.

No início dos anos 40, minha família passou a residir à beira do rio, onde meu pai, Henrique Luiz Frauches, estabeleceu-se com um armazém. À época chamavam de “venda”. Eu não tinha vocação para pescaria, mas ficava mirando as águas rolarem, mansas ou agitadas, rumo ao mar. Não sei o que pensava, naquela tenra idade, mas a minha imagem extasiada com aquela cena simples e bucólica está arquivada em minha memória sentimental. E às vezes vem à tona, como agora. Uma frutinha saborosa, que não vejo e nem como há décadas, o ingá, faz a salivação aumentar, quando relembro aqueles “tempos que não voltam mais”. Lembro-me trepado nos ingazeiros, em galhos que ficavam em cima das águas. Eram dois prazeres: o ingá e as águas rolando, rolando...
Antes, meu pai teve uma “venda” na fazenda de Oto Ruback, que ficava do outro lado do rio, no município de Pirapetinga, nas Minas Gerais. A cidade de Pirapetinga ficava mais perto de nossa residência do que Cantagalo (RJ), tanto na fazenda quanto no Porto do Tuta. A travessia do rio, nas idas e vindas para visitar meus avós − paternos e maternos − era numa barcaça rústica, que lentamente cortava as correntezas e atracava na outra margem. O vento no rosto, os cabelos ao léu. Os pensamentos voavam longe.
Quando meu pai teve que voltar para a Fazenda da Serra, a fim de administrá-la, em virtude do desencarne de meu avô, Américo Fernandes Frauches, eu não me afastei do Paraíba do Sul. Diariamente, durante três anos, estava no Porto do Tuta, para os estudos primários, na Escola dirigida pela minha inesquecível mestra, Neli Rodrigues Moreira. O “da Costa” veio posteriormente, quando ela se casou com o meu tio e amigo Acyr Ferreira da Costa, irmão de minha mãe, Etelvina (Telva). O Rio Paraíba do Sul estava novamente em minha vida. Ainda permanecia nela, quando visitávamos parentes na sede do distrito São Sebastião do Paraíba ou nas festividades do padroeiro da vila.
Há anos estou em Brasília, com vários rios alimentando a barragem do Paranoá, construída para amenizar a secura do clima do Distrito Federal. Rios poluídos, como o Paraíba do Sul. Não há mais águas límpidas, transparentes, que nos permitam apreciar os peixinhos nadando felizes. Enquanto não aparece um traiçoeiro anzol...
O trecho do Rio Paraíba do Sul, entre a vila de São Sebastião do Paraíba e a cidade de Itaocara (RJ), está ameaçado, há anos, de virar uma poluída barragem para mais uma hidrelétrica, em tempos de energia solar, eólica e outras. A insanidade ecológica de nossos governantes ignora o crime que estão permitindo ocorrer, com a ganância de investidores, como os responsáveis pelos desastres de Mariana e Brumadinho (MG).
Não. Não vou permitir a poluição de minhas bucólicas reminiscências dos tempos de fruição das delícias do Paraíba, com a poluição dos rios e a ira contra uma barragem desprezível.
O Rio Paraíba do Sul foi um rio que passou e ficou em minha vida. Mesmo na distante e fria Brasília...