domingo, 27 de janeiro de 2019

Vale do Rio Doce: o rio é doce, mas a Vale é amarga


Li, na semana finda, consternado, a manchete de algumas mídias: “Mar de lama destrói casas e deixa feridos e mortos na região metropolitana de Belo Horizonte, após rompimento de barragem na Mina Córrego do Feijão, da Vale do Rio Doce. Causas do incidente são desconhecidas”.
“Causas do incidente são desconhecidas”?
Li, ainda, matéria com a seguinte manchete: “Três anos depois, vítimas de Mariana ainda esperam ter casas reconstruídas. Tragédia da barragem do Fundão, em Mariana, deixou 19 mortos e danos socioambientais incalculáveis. Em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, neste domingo, são confirmados 37 mortos e 250 desaparecidos.
A Cia. Vale do Rio Doce − a partir de 2009, Vale S/A – era um empresa estatal, criada em 1942, pelo presidente Getúlio Vargas. Foi privatizada no governo Fernando Henrique Cardoso, em 6 de maio de 1997. É a maior produtora de minério de ferro do planeta. É a segunda maior empresa brasileira na Bolsa de Valores de São Paulo.
Acabo de acessar o saite da Vale S/A, às 9h34 de 27/1/2019, para obter informações sobre a situação atual da tragédia de Brumadinho. Acesso o link Últimas informações sobre Brumadinho e aparece a mensagem “Web Site not found” (Web Site não encontrado)...
As informações sobre o Código de Conduta Ética da Vale S/A dão destaque ao seguinte princípio: “Promover a melhoria contínua da consciência ética na Vale e garantir às partes interessadas internas e externas um canal de comunicação proativo, transparente, independente e imparcial para lidar com as denúncias e reclamações”. O meio ambiente não é uma de suas prioridades.
A Vale opera em catorze estados brasileiros e em dez países – Austrália, Brasil, Canadá, China, Indonésia, Japão, Malásia, Moçambique e Nova Caledônia. Não há notícias de desastre humano e ecológico, nos outros países, como os dois ocorridos no Brasil, nas Minas Gerais – Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019.
As causas desses dois desastres humanos e ecológicos são mesmo desconhecidas? A Vale não aprende com os seus erros. Muda de CEO, mas não muda de comportamento e não desenvolve ações efetivas para evitar outras tragédias como as de Mariana. O CEO da Vale vem a público pedir desculpas às vítimas e à sociedade, mas em três anos não conseguiu devolver às vítimas de Mariana sequer as casas que lhes foram roubadas pelo desastre de responsabilidade da Vale. Apela para os relatórios de auditorias externas estrangeiras, desconhecidos do povo brasileiro e sem iluminar os seus ouvintes com as metodologias usadas.
As agências reguladoras da área, assim como os órgãos de supervisão e fiscalização das empresas mineradoras, também não aprenderam com o desastre de Mariana. Como todos órgãos estatais, veem a público para informar que as fiscalizações são regulares, duvidando da inteligência do povo.
No Congresso Nacional tramitam, há anos, cerca de cinco projetos de lei destinados à regulação do setor de mineração. O legislador populista pensa que resolve os problemas através de leis “mais rigorosas”. Ledo engano. O que falta é responsabilidade do Poder Público, em todos os níveis, por meio de seus órgãos reguladores ou de fiscalização, pelo controle, supervisão e fiscalização das empresas desse e de outros setores da economia.
Talvez seja o momento de lembrar ao ilustre leitor – se houver – que a Vale foi privatizada por FHC, mas aparelhada pelos governos petistas, com apoio do PMDB, agora novamente MDB, com o uso dos fundos de pensão, também aparelhados pelo PT, partido que não representa os trabalhadores, mas uma elite intelectual e artística conservadora, mascarada de “progressista”, e a “nomenclatura soviética” do partido, administrada da cadeia, como faz o PCC, no caso do Ceará, entregue à governança petista há anos.
Carlos Drummond de Andrade (1902/1987), de Itabira (MG), localizada no chamado Quadrilátero Ferrífero, a leste de Belo Horizonte, já previa tragédias como as de Mariana e Brumadinho. Em poema profético,  publicado, em 1984, no jornal Cometa Itabirano, sob o título Lira Itabirana, Drummond faz, em versos, o que todos pensamos sem rimas:
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?


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