Li, na semana finda, consternado, a
manchete de algumas mídias: “Mar de lama destrói
casas e deixa feridos e mortos na região metropolitana de Belo Horizonte, após
rompimento de barragem na Mina Córrego do Feijão, da Vale do Rio Doce. Causas
do incidente são desconhecidas”.
“Causas do incidente são desconhecidas”?
Li,
ainda, matéria com a seguinte manchete: “Três anos depois,
vítimas de Mariana ainda esperam ter casas reconstruídas. Tragédia da
barragem do Fundão, em Mariana, deixou 19 mortos e danos socioambientais
incalculáveis. Em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, neste
domingo, são confirmados 37 mortos e 250 desaparecidos.
A Cia. Vale do Rio Doce − a
partir de 2009, Vale S/A – era um empresa estatal, criada em 1942, pelo
presidente Getúlio Vargas. Foi privatizada no governo Fernando Henrique
Cardoso, em 6 de maio
de 1997. É a maior produtora de minério de ferro do planeta. É a segunda maior
empresa brasileira na Bolsa de Valores de São Paulo.
Acabo de acessar o saite da Vale S/A, às 9h34 de
27/1/2019, para obter informações sobre a situação atual da tragédia de
Brumadinho. Acesso o link Últimas informações sobre Brumadinho e aparece a mensagem “Web
Site not found” (Web Site
não encontrado)...
As informações sobre o Código de
Conduta Ética da Vale S/A dão destaque ao seguinte princípio: “Promover a
melhoria contínua da consciência ética na Vale e garantir às partes
interessadas internas e externas um canal de comunicação proativo,
transparente, independente e imparcial para lidar com as denúncias e
reclamações”. O meio ambiente não é uma de suas prioridades.
A Vale opera em catorze estados
brasileiros e em dez países – Austrália, Brasil, Canadá, China, Indonésia,
Japão, Malásia, Moçambique e Nova Caledônia. Não há notícias de desastre humano
e ecológico, nos outros países, como os dois ocorridos no Brasil, nas Minas Gerais
– Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019.
As causas desses dois desastres
humanos e ecológicos são mesmo desconhecidas? A Vale não aprende com os seus
erros. Muda de CEO, mas não muda de comportamento e não desenvolve ações
efetivas para evitar outras tragédias como as de Mariana. O CEO da Vale vem a
público pedir desculpas às vítimas e à sociedade, mas em três anos não
conseguiu devolver às vítimas de Mariana sequer as casas que lhes foram
roubadas pelo desastre de responsabilidade da Vale. Apela para os relatórios de
auditorias externas estrangeiras, desconhecidos do povo brasileiro e sem
iluminar os seus ouvintes com as metodologias usadas.
As agências reguladoras da área,
assim como os órgãos de supervisão e fiscalização das empresas mineradoras,
também não aprenderam com o desastre de Mariana. Como todos órgãos estatais, veem
a público para informar que as fiscalizações são regulares, duvidando da
inteligência do povo.
No Congresso Nacional tramitam,
há anos, cerca de cinco projetos de lei destinados à regulação do setor de mineração.
O legislador populista pensa que resolve os problemas através de leis “mais
rigorosas”. Ledo engano. O que falta é responsabilidade do Poder Público, em
todos os níveis, por meio de seus órgãos reguladores ou de fiscalização, pelo
controle, supervisão e fiscalização das empresas desse e de outros setores da
economia.
Talvez seja o momento de lembrar
ao ilustre leitor – se houver – que a Vale foi privatizada por FHC, mas
aparelhada pelos governos petistas, com apoio do PMDB, agora novamente MDB, com
o uso dos fundos de pensão, também aparelhados pelo PT, partido que não
representa os trabalhadores, mas uma elite intelectual e artística conservadora,
mascarada de “progressista”, e a “nomenclatura soviética” do partido, administrada
da cadeia, como faz o PCC, no caso do Ceará, entregue à governança petista há
anos.
Carlos Drummond de Andrade
(1902/1987), de Itabira (MG), localizada no chamado Quadrilátero Ferrífero, a
leste de Belo Horizonte, já previa tragédias como as de Mariana e Brumadinho.
Em poema profético, publicado, em 1984, no jornal
Cometa Itabirano, sob o título
Lira
Itabirana, Drummond faz, em versos, o que todos pensamos sem rimas:
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O Rio? É doce.
A Vale? Amarga. Ai, antes fosse Mais leve a carga.
II
Entre estatais
E multinacionais, Quantos ais!
III
A dívida interna.
A dívida externa A dívida eterna.
IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro? Quantas lágrimas disfarçamos Sem berro? |
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