domingo, 23 de agosto de 2020

EDUCAÇÃO 4.0: QUEM SABE FAZ A HORA

 EDUCAÇÃO 4.0: QUEM SABE FAZ A HORA

No meu livro EDUCAÇÃO 4.0: gestão de IES em tempos de mudanças radicais, editado no formato e-book, em 2018 (Disponível para download gratuito em www.andragogia.net), transcrevo trecho do livro The End of College (O Fim da Faculdade), de Kevin Carey, editado em 2015, no qual ele afirma que “o número de faculdades que serão reduzidas será muito maior nos próximos 30 anos do que nos 30 anteriores, e que as que quiserem sobreviver precisarão mudar fundamentalmente seus modelos organizacionais”.  Carey é mestre em Administração pela Ohio State University, Columbus, Ohio (EUA), e vice-presidente da New America. Trata-se de uma fundação, com sede em Washington, que se dedica a pesquisas que tenham por objetivo promover “os ideais mais elevados” dos EUA.

Kevin faz uma análise do cenário norte-americano. Aplica-se, todavia, ao cenário brasileiro atual, em plena pandemia da Covid-19. Centenas de instituições de educação superior (IES) da livre iniciativa passam por crises de difícil solução. Persistem em metodologias de aprendizagem do século passado, algumas remontam ao século 18; o único espaço de aprendizagem é a antiga sala de aula, com as carteiras em filas, um aluno atrás do outro; o professor continua a ser o detentor da informação e o estudante um ser passivo.

Pestalozzi (Johann Heinrich Pestalozzi 1746/1827), no século 18, já afirmava que o educando tem potencialidades inatas e que ao educador cabe provocar o desenvolvimentos dessas capacidades latentes. A maioria dos professores e, portanto, das IES persiste no processo tradicional de “ensinar”, em vez de provocar o surgimento das potencialidades inatas do educando, por meio de metodologias ativas de aprendizagem, tendo o professor na sua função mais nobre de orientar, estimular, intermediar. Novos espaços de aprendizagem podem ser desenvolvidos, presenciais ou a distância (EAD). O uso das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs), por si só, não assegura o êxito e a qualidade do processo de aprendizagem. Há que promover previamente a capacitação docente para uso dessas tecnologias na aplicação das metodologias ativas de aprendizagem. O mesmo deve ser ofertado aos estudantes ingressantes, saídos, na sua maioria, do ensino médio tradicional das escolas públicas.

Karl Paul Polanyi (1886/1954), filósofo, sociólogo, historiador da economia e economista político húngaro, defende que “o ritmo das mudanças muitas vezes não é menos importante do que a direção da própria mudança, mas enquanto esta última frequentemente não depende da nossa vontade, é justamente o ritmo no qual permitimos que a mudança ocorra que pode depender de nós”. Aplica-se ao caso presente, quando a direção da pandemia não depende das IES, mas o ritmo de adaptação e superação a esse cenário inesperado e inédito está à disposição delas, no uso da autonomia didático-pedagógica que lhes concede a legislação e normas vigentes.

Algumas instituições copiam outras, sem atentar para a sua cultura organizacional, o seu público alvo e as condições econômico-financeiras dos seus estudantes. Precisam “mudar fundamentalmente seus modelos organizacionais”. Em vez disso, copiam o chamado ensino híbrido como uma metodologia ativa, quando a definição literal dessa modalidade, segundo José Armando Valente, livre docente da Unicamp (Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. Lilian Bacich e outros.  Porto Alegre: Penso, 2015, p. 13), é “uma abordagem pedagógica que combina atividades presenciais e atividades realizadas por meio de tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs)”. O semipresencial dos anos 90, colorido com o hibridismo. Um banho de loja. Sem entrar na loja, só na pintura externa.

Klaus Schwab, presidente do Fórum Econômico Mundial, muito antes dessa pandemia global, afirmava que “as mudanças são tão profundas que, na perspectiva da história da humanidade, nunca houve um momento tão potencialmente promissor ou perigoso”. O “momento potencialmente promissor” é a oportunidade de inovar, não ter medo das mudanças, criar novos caminhos. Avaliar permanentemente as metodologias ativas de aprendizagem adotadas; aprimorá-las.

Antonio Machado, poeta Catalão, em um de seus versos no poema Caminante, ensina: “Caminante, no hay camiño; el camino se hace al andar”. Mas a maioria das IES está acomodada, continuando a caminhar atrás de seus concorrentes, como gado indo para o matadouro, com medo de inovar, de criar o seu próprio caminho e evoluir para uma educação de qualidade, onde o educando seja o centro do processo de aprendizagem.

Vale a pena transcrever, na mesma linha de raciocínio, alguns versos do poeta norte-americano Robert Frost (1874-1963):

Daqui a mil anos, o que aconteceu,

Suspirando, contarei a ti:

Dois caminhos bifurcavam, eu

O menos pisado tomei como meu

E a diferença está toda aí.

“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” já recomendava o poeta Geraldo Vandré, na década de 60, em versos do seu poema musicado: “Pra não dizer que não falei de flores”.

Em 1999, publiquei um artigo usando o título da música de Vandré. Nele, já alertava as IES para a necessidade de mudanças radicais em suas funções universitárias. Em outro artigo, da mesma épocaManual de Sobrevivência da Selva Universitária dava algumas dicas de como sobreviver no próximo milênio, prestes a se iniciar. Esse artigo, por sua atualidade, vai na íntegra em outra postagem. ¨

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