domingo, 23 de fevereiro de 2020

Kardec & Roustaing: dissensão no Espiritismo



O Livro dos Espíritos, um dos pilares da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec (1804/1869), foi originalmente publicado em Paris, em 1857. É uma obra revolucionária para a humanidade. Ultrarrevolucionária para os tempos em que foi lançada e revolucionaria, ainda nos alvores do século 21, a chamada Nova Era.
Por essa obra monumental de Kardec, nós espíritas cremos na imortalidade da alma ou espírito, na reencarnação como processo educacional, na vida eterna. A vida é uma só, mas o espírito vive várias experiências, em planos incontáveis de vida. São muitas as reencarnações, milhares ou milhões, na longa trajetória do espírito em sua jornada de volta ao seu Criador. Do mineral ao angelical.
Nas décadas de 50 e 60 do século 19, época da Codificação do Espiritismo, o mundo físico da Terra não conhecia o telefone (1876), a luz elétrica (1879), o automóvel (1886), o rádio e a telegrafia sem fio (1896), a televisão (1924), o computador (1945), os satélites artificiais (1957) e a internet (1969).
Nas principais décadas da produção mediúnica de Chico Xavier (1910/2002) – entre 30 e 70 do século 20 –, o nosso mundo já conhecia todos esses meios de comunicação, estando a internet em fase inicial, somente para uso militar. Houve, portanto, mudanças, no plano físico e no mundo espiritual, que permitiram a implementação do Espiritismo, agora em terras brasileiras, para desenvolver a obra de Kardec.
A imprensa, contudo, indispensável à propagação do Espiritismo, em livros, periódicos e folhetos, existia nas décadas da Codificação e evoluiu consideravelmente no século passado. O livro e o periódico foram instrumentos notáveis para a propagação do Espiritismo no mundo e no Brasil, em particular, para a obra missionária de Chico Xavier. No século 21, surgem novas mídias, possibilitadas pela Internet, mais libertárias e democráticas, como o e-book, os noticiários, os vídeos, por exemplo. Hoje, o rádio e a televisão podem ser transmitidos pela Internet, com custos bem mais em conta para a divulgação ampla do Espiritismo em todo o planeta.
O mundo evoluiu e continua evoluindo, incessantemente, em todos os planos de vida. Como o Espiritismo.
Kardec teve o apoio de uma plêiade de Espíritos, entre os quais Emmanuel e São Luís, sob a supervisão do Espírito Verdade, para a Codificação do Espiritismo. De acordo com o Espírito Irmão X ‒ Humberto de Campos (1886/1934) ‒ (CAMPOS, Humberto de. Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho / [psicografado por] Chico Xavier. Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 156), a Espiritualidade Superior promoveu a reencarnação de espíritos missionários para apoiarem Kardec em sua obra, “[...] nas individualidades de João Batista Roustaing (1805-1879), que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis (1846/1927), que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne (1857/1926), que apresentaria a estrada científica, e de Camille Flammarion (1842/1925), que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na Codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-as com os necessários complementos.
A participação de Roustaing é, ainda hoje, motivo de polêmica no meio espírita brasileiro. Conta-se que a Federação Espírita Brasileira (FEB) solicitou a Chico Xavier, a inclusão de Roustaing nessa equipe. Consultado, Emmanuel acedeu, para não prejudicar a publicação da obra, parte dos planos do Espiritismo para o Brasil.
A teoria da vinda de Jesus em um corpo fluído, agênere ‒ do grego a, privado, e - géiné, géinomai, gerar: que não foi gerado , um espírito momentaneamente materializado, assumindo as formas de uma pessoa viva, ao ponto de produzir uma ilusão completa , presente na  obra Os Quatro Evangelhos, parece contrariar, pelo menos nessa questão, os princípios da Doutrina Espírita. Kardec, na edição de junho de 1866 da Revista Espírita (Ano primeiro – 1958 / publicada sob a direção de Allan Kardec; [tradução de Evandro Noleto Bezerra; (poesias traduzidas por Inaldo Lacerda Lima)]. – 4. Ed. – 2ª reimpressão – Rio de Janeiro: FEB, 2009, p. 257), ao comentar a referida obra, diz que “até nova ordem não daremos as suas teorias nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de as sancionar ou as contraditar”, não se posicionando “a favor ou contra essa teoria”, mas registrando que “ela é, pelo menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errônea, faltando a base, o edifício desabaria”.
Mais de século e meio passados, Os Quatro Evangelhos, de responsabilidade de Roustaing, continua gerando polêmica e dividindo boa parte dos espíritas em torno de sua questão central: Jesus como um agênere. A “sanção do controle universal”, preconizada por Kardec, ainda não aconteceu. Assim, essas “opiniões pessoais dos Espíritos [...] não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita”. Parece mais uma obra que veio para confundir, em vez de esclarecer, apoiar a Codificação.
A dissenção no movimento espírita brasileiro, com a edição de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, pela Federação Espírita Brasileira, lembra a presença de Waldo Vieira (1932/2015) junto a Chico Xavier, por curto período, e o seu brusco desligamento das atividades mediúnicas, ao criar a Conscienciologia, um movimento dissidente do Espiritismo, inicialmente identificado por Waldo Vieira com Projeciologia, de cunho pseudo científico.
Chico Xavier teve em Emmanuel e em outros notáveis mentores, como Bezerra de Menezes (1831/1900), Cairbar Schutel (1868/1938), Eurípedes Barsanulfo (1880/1918 e André LuizCarlos Chagas (1879/1934) ‒, o “Repórter do Além” e sustentáculo para implantar e desenvolver a Codificação em terras brasileiras. A Espiritualidade Superior cuidou para que uma elite de espíritos superiores reencarnasse, antes, junto e depois da reencarnação de Allan Kardec, como Chico Xavier, em solo brasileiro, para a preparação do ambiente, o apoio e a consolidação da mensagem espírita no Brasil e no mundo. É importante ressaltar o pioneirismo de Bezerra de Menezes, Cairbar Schutel, Eurípedes Barsanulfo e Peixotinho (1905/1966), entre outros, cada um com ênfase em área específica, que vieram preparar o caminho para que o Codificador, agora no corpo de Chico Xavier, pudesse desenvolver a sua obra, no Brasil,  .
A atuação de Bezerra de Menezes na organização e presidência da Federação Espírita Brasileira, a FEB, merece destaque. Assume a presidência da FEB, em 1895, “[...] com poderes absolutos, dadas as circunstâncias, e começa o trabalho de reconstrução, imprimindo à Instituição a orientação doutrinário-evangélica na qual ela se manteve firmemente até nossos dias. Equilibrou a situação financeira, para atender aos encargos e serviços, e reorganizou todos os trabalhos da Casa”.
A exemplo de Kardec, Bezerra de Menezes emprestou a sua credibilidade como homem público e médico conceituado para que o Espiritismo, em terras brasileiras, fosse recepcionado com seriedade, apesar da oposição da hierarquia da Igreja Católica. A Bezerra de Menezes foi entregue essa nobre missão, cumprida integralmente.
Devo realçar a importância fundamental da Federação Espírita Brasileira na difusão da obra mais significativa de Chico Xavier, Emmanuel e André Luiz. O prestígio e a seriedade da FEB deram credibilidade às mensagens psicografadas por Chico, no início, um “ilustre desconhecido” médium de Pedro Leopoldo. Sem o apoio da FEB, penso que a lídima mensagem espírita, veiculada por Chico Xavier, não teria alcançado o público que atingiu, dando continuidade à obra de Kardec. A publicação pela FEB dos livros e das mensagens esparsas em O Reformador é um marco para a divulgação da obra mediúnica de Chico Xavier. Foram decisivos para a publicação dessas obras pioneiras os presidentes da FEB Guillon Ribeiro (1875/1943) e Wantuil de Freitas (1895/1917), que conduziram os destinos da Federação da década de 30 até o final da década de 60 do século 20.
Sobre Guillon Ribeiro, Ramiro Gama (1898/1981), no livro acima citado, cuja 1ª edição é do início da década de 60 do século 20, diz que numa conversa com Chico Xavier este “particularizou que atravessava uma fase dolorosa no seu mediunato”. O dr. Guillon soube e mandou-lhe uma carta “que viveu com outras, entre seus papeis de estima”. Segundo Ramiro, a carta foi escrita “com a pena do coração e a tinta do pranto, pois que, ao recebê-la, (Chico) sentiu-se afagado, esclarecido, emocionado, finalmente, alegrado com a tarefa árdua que realizava, em nome do Senhor” (GAMA, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier – Biografia do Médium contendo 32 ilustrações a cores. São Paulo: Lake, 20ª ed., 2006).
Também Manuel Quintão, que foi presidente da FEB por várias vezes, entre 1915 e 1929, além de redator-chefe (1927/1928) e diretor (entre 1915 e 1930, em diversos períodos) de O Reformador, foi um dos que esteve ao lado do Chico, nos primeiros momentos de seu mediunato.
Kardec e Chico Xavier, o mesmo Espírito, codificaram, em Paris, na França, e desenvolveram no Espiritismo no Brasil, inicialmente, em Pedro Leopoldo e, mais tarde, em Uberaba, cidades das Minas Gerais. Roustaing e Waldo Vieira foram meros personagens que não contribuíram, como o esperado por Jesus, para um efetivo e permanente apoio às atividades de Allan Kardec e Chico Xavier, estes os atores principais dessa jornada evolutiva de nosso planeta.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Jesus entre os essênios ‒ Mestre adolescente


Eurípedes Barsanulfo (1880/1918) ‒ Espírito ‒, pela mediunidade de Corina Novelino (1912/1980), ditou uma série de mensagens, entre outubro de 1955 e dezembro de 1956, sobre momentos históricos dos essênios e do cristianismo do início do primeiro século desta era. A médium submeteu as primeiras mensagens a Chico Xavier, ao final de 1955. O medianeiro divino de Pedro Leopoldo enviou uma carta para Corina, informando que Emmanuel lhe avisara que essas mensagens eram o início de um livro que Eurípedes Barsanulfo estava ditando por intermédio dela.
Trata-se de uma história vivida por Jesus de Nazaré entre os essênios e as suas consequências nos destinos da filosofia essênia de vida, no século 1 da era cristã, com vários personagens que participaram, ativamente, no final do século 19 e início do século 20, da implantação do Espiritismo no Brasil ‒ Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo e Cairbar Schutel ‒, segundo testemunho de Chico Xavier. Essa história foi editada pelo Instituto de Difusão Espírita (IDE), de Araras (SP), com a 1ª edição do livro A Grande Espera, lançada somente em 1991. Está na 11ª edição, de 2008.
Eurípedes Barsanulfo, pela mediunidade de Corina Novelino, narra uma de suas encarnações, em uma comunidade de essênios, como Marcos, discípulo do mestre Lisandro, reencarnado, no Brasil, como Bezerra de Menezes (1831/1900), e tendo como companheiro de lutas Josafá, aqui reencarnado como Cairbar Schutel (1868/1938). Essa comunidade essênia estava localizada a leste de Hebron, na Judeia.
A Grande Espera trata, basicamente, do aprendizado do jovem Marcos entre os essênios, tendo o ancião e profeta Lisandro como mestre essênio e Josafá/Cairbar, como um auxiliar direto de Lisandro/Bezerra e amigo de Marcos/Eurípedes. Lisandro e Marcos têm uma ligação profunda (p. 65), segundo o primeiro:
Teu coração é um livro aberto para o meu. Nele leio como se tivesse diante dos olhos a página querida de um livro precioso. Porque nos entendemos e nossas almas se entrelaçam em raízes muito antigas, que vitalizam a grande árvore do Amor, dentro do solo dos séculos...
Em A Grande Espera, Eurípedes narra a espera do Messias prometido, tratado entre os essênios como a Grande Estrela ou Grande Espírito, e a passagem do jovem Jesus de Nazaré em uma comunidade essênia, liderada por Lisandro.
Durante o seu aprendizado na comunidade essênia em que vivia – a Chácara das Flores –, Marcos/Eurípedes, sob a liderança de Lisandro/Bezerra, com a assistência permanente de Josafá/Cairbar, conheceu Jesus de Nazaré, na sua adolescência, em torno dos 15 anos de idade. Jesus não foi aprender com os essênios. Já era o Mestre Jesus, mesmo na adolescência. É o que nos informa Eurípedes Barsanulfo em A Grande Espera.
Na chegada de Jesus à Chácara das Flores, Marcos/Eurípedes descreve o Jesus de Nazaré adolescente (pp. 179/180), que estava ao seu lado:
[...] sua beleza radiosa caracterizava-lhe singularmente a luz íntima. O semblante lembrava algo que procedia dos Céus e que somente nas Alturas poderia ser comparado. Cabelos dourados caíam-lhe aos ombros delicados. Os olhos claros escondiam centelhas divinas. E a voz possuía estranhas vibrações e parecia canalizar as forças do Universo, produzindo a mais fantástica das envolvências inexplicáveis.
A aproximação flagrante dos padrões gerais não deslustrava a hierarquia superior do Messias, pois somente o Anjo Celeste, anunciado há séculos pelos Profetas, poderia transmitir, com a simples presença, poderosas emanações edificadoras.
Assumia Ele a roupagem humana para melhor servir aos homens.
Marcos/Eurípedes narra o encontro de Lisandro/Bezerra com Jesus adolescente:
O ancião (Lisandro) chegara sem aviso prévio, dando entrada no pátio coberto, com passos firmes e ligeiros. O Jovem (Jesus) encontrava-se num ângulo do jardim, aparentemente absorvido na contemplação dos canteiros enflorescidos. Veio ao encontro de Lisandro, com os braços estendidos.
Quando ambos se envolveram num amplexo demorado não eram mais que dois focos brilhantes, que se fundiam misteriosamente. Duas estrelas cambiantes a rutilarem tonalidades diferentes, na eclosão mágica do Amor.
Alguns segundos após, quando os braços se afrouxaram, o ancião deixara-se cair aos pés do Adolescente, enquanto os outros (Marcos e Josafá) davam livre curso às lágrimas.
O Mestre Jesus, adolescente, após dirigir a palavra aos membros da comunidade essênia – uma mensagem de amor e caridade –, responde ao pedido de Lisandro/Bezerra: “Raboni! Desejamos aprender a servir. Propiciai-nos um programa de ação, pelo qual nos possamos orientar todos os dias”. E Jesus ensina, solícito (pp. 189/197):
Os planos da Divina Escola do Amor fundamentam-se no desejo bom e permanente de atender-se às necessidades dos semelhantes como se fossem as nossas próprias necessidades. Surgem, portanto, com as circunstâncias: aqui, é um enfermo a reclamar-nos devotamento e assistência; ali, é o faminto a solicitar-vos auxílio; acolá, é o caído, que roga simpatia e compreensão.
Nosso programa baseia-se nas necessidades do próximo, efetivando-se na razão direta das circunstâncias de tempo.
Aproveitemos, pois, a oportunidade do “hoje” porque o “amanhã” apresentará, invariavelmente, ensejos novos de serviço e ninguém pode garantir o exato cumprimento de obrigações acumuladas.
Colocai nos caminhos tristes da inconsciência e da dor os companheiros preparados para a grande tarefa do Amor.
Não vos aflijais com o problema menor – referindo-se à preocupação de Lisandro com “os trabalhos necessários à manutenção dos povoados”. Verdadeiramente insolúvel seriam as condições de incapacidade dos companheiros para as lides do Amor. Não se encontram eles preparados para o grande cometimento?
“Sim – respondeu prontamente Lisandro – os que perseveram no aprendizado trazem na alma o selo do sacrifício e da abnegação”. E o jovem Jesus prossegue como Mestre dos essênios:
Bases novas em edifício velho reclamam supremas concessões ao orgulho milenar das criaturas... Preciso é que os alicerces desgastados de ideias errôneas sejam removidos, para que a rocha de preceitos salvadores os substitua...
Se em cada esquina da dor postar-se um soldado da esperança, em breve as ruas do mundo se iluminarão com as graças do Eterno Amor...
Entretanto, os servidores da boa causa enfeixam-se em reduzido número e a sua quase totalidade acha-se sob a bandeira essênia.
Assim, necessário se faz envieis os companheiros aos antros da revolta, onde predominam as aflições.
Hoje, mais do que ontem, os escolhidos da Divina Misericórdia devem dar o testemunho da bondade, do devotamento e da compreensão. Outra não é a tarefa que o Pai vos confiou ao coração. A dor permanecerá na Terra até que o Amor se derrame em todas as consciências, impulsionando os servidores para a suprema sabedoria. (grifei)
Se não recebeis a lição, como haveis de aprendê-la? Vede bem, aí se encontra o ponto culminante dos que, como vós, vêm acompanhando a marcha evolutiva do orbe, desde a primeira hora.
Também vós, Marcos, tendes participado dos movimentos decisivos da evolução humana, colaborando, paralelamente, na obra ascensional do mundo e na própria iluminação.
Justificar-se-ia o interesse do coração pela causa do Bem comum, se não houvessem laços precedentes como indestrutíveis elos da harmonia universal?
Todos vós – Lisandro/Bezerra, Marcos/Eurípedes e Josafá/Cairbar – fareis parte das arrancadas decisivas do Amor, em todos os tempos, como Mensageiros do Pai de Bondade infinita.
E deixa a sua mensagem final, motivo de sua vinda ao nosso plano físico:
O Amor é a inspiração mais fecunda que existe em toda a harmônica vibração do Universo. Quem cultiva o Amor supera todas as barreiras e ilumina-se com o entendimento das coisas mais altas. O Amor é um programa inteiro de edificações diárias.
Essas pregações de Jesus, em uma comunidade essênia, mostra o Mestre em atividade desde a adolescência, culminando aos 33 anos de idade, quando cumpriu os seus derradeiros compromissos até o desenlace, na crucificação. Jesus não foi aprender com os essênios, como muitos autores afirmam, sem qualquer prova. Foi ensinar. Revela ainda as ligações seculares de Lisandro/Bezerra, Marcos/Eurípedes e Josafá/Cairbar com Jesus Cristo, em sua obra redentora, com reflexos no Brasil ‒ Coração do Mundo; Pátria do Evangelho.
 (Crédito da imagem: < https://maps-jerusalem.com/judea-map>

Nota. Os que se interessarem por essa história podem fazer download gratuito do ebook JESUS, OS ESSÊNIOS E O ESPIRITISMO NO BRASIL, disponível em: https://www.andragogia.net.br



sábado, 8 de fevereiro de 2020

Getúlio Vargas: o “bilhete-testamento”.



Getúlio Vargas (1882-1954) governou o Brasil, de 1930 a 1945. De 1930 a 1934, como chefe de um Governo Provisório; de 1934 a 1937, como presidente eleito pela Assembleia Nacional Constituinte; de 1937 a 1945, como ditador, no chamado Estado Novo. Voltou ao governo em 1951, eleito democraticamente pelo voto direto. Esse curto período democrático, após três anos e meio de um governo em crises permanentes, foi encerrado com o seu suicídio.
Em 24 de agosto de 1954, o então presidente da República, Getúlio Vargas, foi encontrado morto no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Suicidou-se. Ao seu lado um manuscrito de sua autoria, considerado o legado de sua morte, amplamente divulgado pelas mídias de então. Em seguida, houve a divulgação de uma carta datilografada, supostamente escrita pelo próprio Getúlio. Afinal de contas: quais dos dois documentos são de autoria de Vargas? Essa dúvida permaneceu até 1998. Vê-se, agora, que apenas o “bilhete” pode ser reconhecido como a “carta-testamento” de Getúlio. A mensagem datilografada não foi escrita por ele. Uma farsa.
O Espírito Eça de Queirós (1845-1900), o escritor e diplomata português nascido José Maria de Eça de Queiroz, revela-nos, no livro Getúlio Vargas em dois mundos, pela psicografia de Wanda A. Canutti, cuja primeira edição é de 1998, a verdade sobre esse documento de nossa história recente (Capivari, SP: EME, 2018).
Como Irmão José, Eça é um dos instrutores de uma comunidade espiritual, situada em alguma dimensão da Terra. Em dado momento, ele recebe o Espírito Getúlio Vargas para ser por ele orientado, em nova etapa de seu processo de reajuste nessa nova morada, após catorze anos de sofrimento em zonas sombrias. O suicídio é uma bruta agressão ao corpo dado a um espírito em nova reencarnação, no longo processo pedagógico de seu aprendizado com os erros do passado. Geralmente, por esse ato brusco e violento, os suicidas sofrem em zonas espirituais que alguns teóricos chegam a qualificar como infernais.
Irmão José consegue, aos poucos, conduzir o Espírito Getúlio à plena consciência de seu passado recente, no Brasil, em uma reencarnação que durou 72 anos. Ao final desse processo, chega-se ao suicídio e Getúlio, ciente de seu orgulho ferido, reconhece que deixou um bilhete, e o fez como uma espécie de vingança aos que o forçavam àquela situação. E confessa que movidos pelo orgulho (p. 237) “praticamos atos que, às vezes, não teríamos coragem de enfrentá-los de outra forma. [...] quando nada mais via que pudesse atenuar o sentimento tão forte de decepção, de dor, de mágoa e, ao mesmo tempo de revolta que sentia em mim, ainda enderecei-lhes aquele pequeno bilhete, [...] Ainda me lembro dele, neste momento, palavra por palavra: "À sanha dos meus inimigos, deixo o legado de minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que eu desejava...". (grifei)
Eis o bilhete na íntegra, classificado como a carta-testamento de Vargas:
"Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte. Levo o pesar de não haver podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia. A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa. Acrescente-se a fraqueza de amigos que não me defenderam nas posições que ocupavam, a felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês e a insensibilidade moral de sicários que entreguei à justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país, contra a minha pessoa. Se a simples renúncia ao posto a que fui elevado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranquilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria. Mas tal renúncia daria ensejo para com fúria, perseguirem-me e humilharem. Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas. Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao senhor, não de crimes que contrariei ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes. Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o sangue de um inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus. Agradeço aos que de perto ou de longe trouxeram-me o conforto de sua amizade. A resposta do povo virá mais tarde...”.
Ao finalizar sua viagem ao longo do processo de recordação de sua encarnação como Getúlio, reconhece que o orgulho e as mágoas de 1954 estão superados e pede ao Irmão José – Eça de Queirós – que escreva, para o Brasil, a sua história verdadeira, incluindo a vida no Além, para “Que todos os que ofendi possam lembrar deste velho Presidente, como alguém que hoje está modificado, e muito tem sido ajudado, aqui, neste País da Verdade, agora, onde me encontro!. E dita, ao final, uma carta do Getúlio renovado à população brasileira (pp. 300/3010):
“Que as bênçãos de Jesus possam envolver, neste momento, todos os que desta mensagem tomarem conhecimento, e saibam compreender aquele que aí viveu, e agora retorna, não mais com uma mensagem-testamento, de mágoas e frustrações, mas para provar-lhes a sobrevivência do Espírito, e transmitir-lhes uma palavra de reconhecimento e de amor! O reconhecimento, como conscientização dos erros que aí cometi, quando da oportunidade maior que me foi colocada às mãos, a meu próprio pedido, para auxiliar esse País necessitado, e o reconhecimento, em forma de gratidão, ao País que me acolheu e ao povo que me amou! Por isso retorno, não como aquele que aí viveu, mas como este que hoje sou, após muito ter sofrido, por tantos erros e atos impensados praticados! Entretanto, apesar de muito ter errado e me afastado dos planos que deveriam ter sido postos em prática, Deus, na sua misericórdia e justiça, também levou em conta, para atenuar as minhas faltas, o que pude realizar em favor dos outros! Volto, com a consciência, a meu ver, mais equilibrada e lúcida, para mostrar-lhes que assumimos compromissos profundos, quando não vivemos pautados pelos ensinamentos da Doutrina Cristã, e temos que responder, após, por todos os atos praticados em desfavor de outrem! Muito padeci aí, por tantos que me oprimiam, mas a eles também transmito o meu agradecimento! Serviram para que débitos antigos fossem ressarcidos, e hoje, lembro-me deles com muito respeito! Que todos os que ofendi possam lembrar deste velho Presidente, como alguém que hoje está modificado, e muito tem sido ajudado, aqui, neste País da Verdade, agora, onde me encontro! Quero lhes dizer ainda que, às vezes, pensamos que aí sofremos por injustiças, mas um passado longínquo, com o qual temos ligações profundas, pela prática de atos reprováveis diante de Deus, nos obrigou àquele sofrimento. Mas, graças a Ele mesmo, a Jesus, e aos Amigos Espirituais, temos a oportunidade de retornar, quantas vezes forem necessárias, para que os resgates sejam efetuados! Que todos possam ter o meu apagado exemplo, como um alerta em suas vidas, para não cometerem o que cometi, mas que se esforcem, por sempre fazerem o melhor, não para si próprios, mas o melhor diante de Deus! Que nunca pratiquem o que pratiquei, como retirada do mundo dos encarnados, porque o sofrimento que nos aguarda, depois, é muito grande! Se volto, através desta mensagem, é para mostrar que agora estou bem, e dizer o quanto sofri, o quanto me arrependi, após, pois tudo o que valorizamos aí, e pelo qual lutamos, aqui pouco importa! Aqueles que me amaram, àqueles que me perseguiram, àqueles que me oprimiram, ao País que me acolheu, a Deus que me amparou, embora eu d'Ele tenha me afastado muito, a minha gratidão! Que Deus abençoe a todos, dando-lhes a força para sempre reagirem aos impulsos infelizes, para que um dia, de retorno à Pátria Verdadeira, possam encontrar a alegria dos que os acompanharam, a gratidão dos que foram beneficiados pela sua companhia, e o amor de Deus, em forma de amparo e de luz para si próprios!”.


sábado, 1 de fevereiro de 2020

Mundos paralelos: a Terra é uma cebola...


Chico Xavier, o médium divino, afirmava que “O Universo é como se fosse uma cebola partida ao meio. O que enxergamos? Diversas camadas. Cada camada corresponde a uma dimensão. Vivemos, apenas e tão somente, numa camada da cebola. A Terra não é mais que uma camada da cebola. O plano espiritual é a próxima camada da cebola. Mas para que possamos subir a uma esfera mais elevada, precisamos perder peso, ou seja, precisamos ocupar corpos cada vez mais diáfanos, aperfeiçoados, cada vez mais etéreos, menos grosseiros”.
Trazendo essa teoria para o nosso planeta, temos a Terra como uma cebola. Cada camada da cebola é uma dimensão. E cada dimensão é um mundo, desde o físico, onde nós vivemos, até o mais diáfano onde vivem espíritos em adiantado estado de evolução espiritual, em escala infinita. Ao chegar à camada mais elevada do planeta, o Espírito pode ansiar a vida em planetas mais evoluídos do que o nosso. Em outra camada do universo.
“Há muitas moradas na casa do Pai” (JOÃO, 14:1 a 3.). Essas moradas podem ser os milhões de planetas que giram pelo universo, assim como as moradas em cada camada da cebola, em cada planeta.
O físico Stephen Hawking, pouco antes de desencarnar, publicou a sua última pesquisa. Em seu artigo aponta que nosso Universo pode ser apenas um de muitos outros parecidos com ele. Documentário da BBC sobre Stephen Hawking revela que "os outros universos são paralelos ao nosso, e talvez bem próximos também, mas dos quais nós nunca tivemos consciência. Eles talvez sejam completamente diferentes com leis naturais completamente distintas atuando. [...] O último entendimento do multiuniverso é que possa haver um infinito número de universos, cada um com diferentes leis da física. Nosso Universo poderia ser apenas uma bolha flutuando num oceano de outras bolhas”.
As notícias que temos das diversas dimensões da Terra, transmitidas por espíritos desencarnados, é infinitamente mais rica.
Emmanuel Swedenborg, espiritualista, cientista e filósofo, dominava, à sua época, praticamente todas as ciências. No livro  A verdadeira religião faz revelações sobre o mundo espiritual que nem na Codificação Espírita, um século depois, aparece com tantos detalhes. O mais difundido desses textos é de uma clareza impressionante para o seu tempo, somente voltando a ser revelado, com maior profundidade, pelo Reverendo Owen, no início do século 20: “No Mundo Espiritual há terras como no nosso mundo natural, há planícies e vales, montanhas e colinas e também fontes e rios; há cidades e nessas cidades há palácios e casas; há escritos e livros; há funções e comércio; há ouro, prata e pedras preciosas; em uma palavra, há, tanto em geral como em particular, todas as coisas que estão no mundo natural, mas estas coisas nos céus são imensamente mais perfeitas”.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo III – Há muitas moradas na Casa de meu Pai Kardec aborda os Diferentes estados da alma na erraticidade e Diversas categorias de mundos habitados. Desecreve ele, sob a orientação dos Espíritos, no item Diferentes estados da alma na erraticidade: “A Casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito, oferecendo aos Espíritos desencarnados estações apropriadas ao seu adiantamento. Independentemente da diversidade dos mundos, essas palavras podem também ser interpretadas pelo estado feliz ou infeliz dos Espíritos na erraticidade. Conforme for ele mais ou menos puro e liberto das atrações materiais, o meio em que estiver, o aspecto das coisas, as sensações que experimentar, as percepções que possuir, tudo isso varia ao infinito. Enquanto uns, por exemplo, não podem afastar-se do meio em que vieram, outros se elevam e percorrem o espaço e os mundos. Enquanto certos Espíritos culpados erram nas trevas, os felizes gozam de uma luz resplandecente e do sublime espetáculo do infinito. Enquanto, enfim, o malvado, cheio de remorsos e pesares, frequentemente só, sem consolações, separado dos objetos da sua afeição, geme sob a opressão dos sofrimentos morais, o justo, junto aos que ama, goza de uma indizível felicidade. Essas também são, portanto, diferentes moradas, embora não localizadas nem circunscritas. (gn)
As moradas “não localizadas nem circunscritas” podem ser caracterizadas como as colônias, estâncias ou postos de socorro e assistência do mundo espiritual, em suas diferentes dimensões, descritos em inúmeras obras espíritas, especialmente, na coleção A Vida no Mundo Espiritual, de André Luiz, editada pela FEB.
O Espírito Inácio Ferreira, o Dr. Inácio, outro repórter do Além, pela mediunidade de Carlos A. Baccelli (FERREIRA, Inácio. Um mundo espiritual chamado terra / ditado pelo Espírito Inácio Ferreira; [psicografado por] Carlos A. Baccelli. Uberaba, MG: LEEPP, 2016, págs. 81 e 112), que amplia as informações de André Luiz sobre o mundo espiritual, afirma que “Todos os Planos de Vida no Universo são de natureza espiritual – a Terra mesma é Plano Espiritual, sobre o qual a matéria se condensa. Todas as chamadas “Sete Esferas da Terra”, a rigor, são Planos, ou Planetas Espirituais. Quando o espírito desencarna, habitualmente, ele se transfere para o Plano que lhe é imediato, e mais compatível com a sua nova condição perispiritual, que é regido pela Lei Gravitacional característica. A Lei da Gravidade é Lei Universal – impera em todos os quadrantes da Criação Divina. Sendo, por natureza, menos denso, quando se emancipa do corpo de matéria grosseira, o perispírito, naturalmente, sente-se atraído para o meio que lhe seja adequado à nova situação. [...] Existem n Dimensões Espirituais, ou Planetas, semelhantes às camadas de uma cebola internamente – cada uma delas envolvendo e, ao mesmo tempo, sendo envolvidas por outras! Quanto mais o espírito ascende, mais ele abraça o Universo, ampliando o seu domicílio espiritual!.. (grifos do Autor Espiritual).
É o que Pietro Ubaldi chama de “peso específico”: “cada um gravita segundo o próprio peso específico, no próprio plano evolutivo. Peso específico aqui tem o sentido espiritual, o parâmetro é o espírito”.
O Espírito Luiz Sérgio procura explicar aos seus pais com é a matéria no mundo astral (LUIZ SÉRGIO. O mundo que eu encontrei / ditado pelo Espírito Luiz Sérgio; [psicografado por] Alayde de Assunção e Silva. Brasília: [s.n.], 1985, p. 88.): “Nem sempre consigo dizer exatamente o que quero, mas me esforço para chegar perto. Por exemplo, quando dize­mos que aqui é tudo rarefeito em relação à matéria que conhecemos quando encarnados, fazem ideia de que a densidade relativa é rarefeita. Não, não é. As moléculas guardam entre si os mesmos espaços como na matéria. A matéria é que é diferente. Somos corpos iguais, de matéria diferente. Tudo se opera como se fôssemos gente mesmo. As diferenças estão nas proprie­dades dessa matéria, que não condiz exatamente com a que forma o mundo dos encarnados. Ela é mais "ma­leável" do que a da Terra”.
O Espírito Atanagildo, ao chegar ao plano astral, constata que o magnetismo naquele mundo é impressionante (ATANAGILDO. O Vale dos Espíritas / ditado pelo Espírito Atanagildo; [psicografado por] Sávio Mendonça. Limeira, SP: Conhecimento, 2015, p. 20): “Basta você modificar o que pensa, especialmente desejos e sentimentos, e é atraído vibratoriamente para o ambiente condizente com aquele padrão de frequência: é como um imã que nos conduz involuntariamente. No mundo físico temos uma barreira natural, que é o corpo físico, mas no Astral não existe mais essa contenção ou biombo energético”.
O assunto é vasto e deve ser estudado, analisado e refletido pelos interessados nessa questão dos mundos paralelos ou das dimensões da Terra. Caso o prezado leitor tenha interesse pelo tema, pode fazer o download do e-book A TERRA É UMA CEBOLA, acessando o Portal Andragogia.