domingo, 15 de dezembro de 2019

Almas gêmeas: o amor construído em milênios



Em O Consolador, Emmanuel aborda o tema das almas gêmeas, objeto das questões 298 a 302 de O Livro dos Espíritos (EMMANUEL, Espírito. O Consolador / ditado pelo Espírito Emmanuel; [psicografada por] Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011), sendo o seu posicionamento questionado pela Federação Espírita Brasileira.
Em resposta à questão 298 de O Livro dos Espíritos – “As almas que devam unir-se estão, desde suas origens, predestinadas a essa união e cada um de nós tem, nalguma parte do Universo, sua metade, a que fatalmente um dia se reunirá?” –, os Espíritos da Codificação respondem (O Livro dos Espíritos. KARDEC, Allan. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, págs. 210-211):
Não; não há união particular e fatal, de duas almas. A união que há é a de todos os Espíritos, mas em graus diversos, segundo a categoria que ocupam, isto é, segundo a perfeição que tenham adquirido. Quanto mais perfeitos, tanto mais unidos. Da discórdia nascem todos os males dos humanos; da concórdia resulta a completa felicidade.
Kardec, em 1827, ao final desse capítulo “Relações simpáticas e antipáticas dos Espíritos. Metades Eternas”, conclui, diante das respostas dos Espíritos[1]:
A teoria das metades eternas encerra uma simples figura, representativa da união de dois Espíritos simpáticos. Trata-se de uma expressão usada até na linguagem vulgar e que se não deve tomar ao pé da letra. Não pertencem decerto a uma ordem elevada os Espíritos que a empregaram. Necessariamente, limitado sendo o campo de suas ideias, exprimiram seus pensamentos com os termos de que se teriam utilizado na vida corporal. Não se deve, pois, aceitar a ideia de que, criados um para o outro, dois Espíritos tenham, fatalmente, que se reunir um dia na eternidade, depois de haverem estado separados por tempo mais ou menos longo.
E o que diz Emmanuel, em 1940, pela psicografia de Chico Xavier, em O Consolador sobre as almas gêmeas? Esclarece o nobre mentor[2]:
323 – Será uma verdade a teoria das almas gêmeas?
No sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade.
Criadas umas para as outras, as almas gêmeas se buscam, sempre que separadas. A união perene é-lhes a aspiração suprema e indefinível. Milhares de seres, se transviados no crime ou na inconsciência, experimentam a separação das almas que os sustentam, como a provação mais ríspida e dolorosa, e, no drama das existências mais obscuras, vemos sempre a atração eterna das almas que se amam mais intimamente, evolvendo umas para as outras, num turbilhão de ansiedades angustiosas, atração que é superior a todas as expressões convencionais da vida terrestre. Quando se encontram, no acervo dos trabalhos humanos, sentem-se de posse da felicidade real para os seus corações – a da ventura de sua união, pela qual não trocariam todos os impérios do mundo, e a única amargura que lhes empana a alegria é a perspectiva de uma nova separação pela morte, perspectiva essa que a luz da Nova Revelação veio dissipar, descerrando para todos os espíritos, amantes do bem e da verdade, os horizontes eternos da vida.
324 – Existe nos textos sagrados algum elemento de comprovação para a teoria das almas gêmeas?
– Somos dos primeiros a reconhecer que em todos os textos necessitamos separar o espírito da letra; contudo, é justo lembrar que nas primeiras páginas do antigo Testamento, base da Revelação Divina, está registrado: “e Deus considerou que o homem não devia ficar só”.
325 – A atração das almas gêmeas é traço característico de todos os planos de luta na Terra?
– O Universo é o plano infinito que o pensamento divino povoou de ilimitadas e intraduzíveis belezas.
Para todos nós, o primeiro instante da criação do ser está mergulhado num suave mistério, assim como também a atração profunda e inexplicável que arrasta uma alma para outra, no instituto dos trabalhos, das experiências e das provas, no caminho infinito do Tempo.
A ligação das almas gêmeas repousa, para o conhecimento relativo, nos desígnios divinos, insondáveis na sua sagrada origem, constituindo a fonte vital do interesse das criaturas para as edificações da vida.
Separadas ou unidas, nas experiências do mundo, as almas irmãs caminham, ansiosas, pela união e pela harmonia supremas, até que se integrem, no plano espiritual, onde se reúnem para sempre na mais sublime expressão de amor divino, finalidade profunda de todas as cogitações do ser, no dédalo do destino.
326 – A união das almas gêmeas pode constituir restrição ao amor universal?
– O amor das almas gêmeas não pode efetuar semelhante restrição, porquanto, atingida a culminância evolutiva, todas as expressões afetivas se irmanam na conquista do amor divino. O amor das almas gêmeas, em suma, é aquele que o Espírito, um dia, sentirá pela Humanidade. (gn)
Emmanuel deixa claro que um Espírito, criado uno, não é dividido em duas metades e, ao final do ciclo reencarnatório, essas metades voltariam a ser um só Espírito. Registra, contudo, que “a ligação das almas gêmeas repousa, para o conhecimento relativo, nos desígnios divinos, insondáveis na sua sagrada origem...”. Não se sente em condições, no estágio evolutivo em que se encontra, para dar “a palavra final” sobre o polêmico tema.
Mas a Federação Espírita Brasileira questionou o médium Chico Xavier e o Espírito Emmanuel sobre essa definição de “almas gêmeas”, em confronto com a resposta dos espíritos e o texto de Kardec, citados anteriormente, que integram O Livro dos Espíritos, em “Nota à primeira edição[3]” de O Consolador, editado pela própria FEB. Eis o questionamento da FEB, depois de transcrever a Questão 298 e o comentário de Allan Kardec, já reproduzido:
Esta circunstância e a presunção, sempre cabível, de qualquer falha na captação mediúnica, tão sutil e delicada, nos levaram a formu­lar ao médium, para que as submetesse ao seu preclaro mentor e autor deste livro, as seguintes objeções:
Esta teoria, ou hipótese, afigura-se-nos aqui algo obscura. Não satisfaz, e, da forma por que é apresentada, parece-nos ilógica e contraditória. De fato, essa criação original, dúplice, induz a concluir que as almas surgem incompletas. É ilação incompatível com a onisciência de Deus. Aliás, é ideia recusada por Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos. A afinidade espiritual deve ser extensiva a todas as criaturas e, se esse sistema de gênese binária pudesse justificar-se, a co­munhão universal jamais seria una e integral. Como contingência acidental, na trajetória dos seres decaí­dos, poder-se-ia talvez admitir, mas, ainda assim, em caráter transitório, condicional, nunca absoluto. De outra forma, parece-nos, seria um dualismo excep­cional, barreira oposta à lei do amor, que deve abran­ger todas as criaturas de Deus em perfeita identidade de origem e de fins. De resto, o nosso grande amigo e lúcido Instrutor é presto no afirmar que Jesus es­capa ou transcende à sua concepção. Ora, assente como postulado incontroverso, que há muitos Cristos, achamos nós que a teoria, ou sistema das almas gê­meas, deixa de ter cunho universal e desnecessário será equacioná-la.
Para nós, o problema se ajusta muito melhor ao instituto da família, como ensaio de comunhão dual, mas sempre condicional ou acidental e transitória, colimando a unificação coletiva com o Cristo, para Deus.
 A estas considerações, dignou-se de responder o insigne e bondoso Emmanuel, com a seguinte mensagem:
Meu amigo, Deus te abençoe o coração nas lutas materiais. Agradecendo o teu carinho fraterno, na co­laboração amiga e sincera de sempre, peço a modifi­cação do texto da questão na 378, do novo trabalho, que deverá ser apresentado nos seguintes termos:
“Grande número de almas desencarnadas nas ilusões da vida física, guardadas quase que integralmente no íntimo, conservam-se, por algum tempo, incapazes de apreender as vibrações do plano espiritual superior, sendo conduzidas pelos seus guias e amigos redimi­dos às reuniões fraternas do Espiritismo evangélico, onde, sob as vistas amoráveis desses mesmos men­tores do plano invisível, se processam os dispositivos da lei de cooperação e benefícios mútuos, que rege os fenômenos da vida nos dois planos".
Devo o pequeno equivoco observado, concedendo à matéria certos ascendentes que só pertencem ao es­pírito, a perturbações do método de 'filtragem mediúnica', onde o nosso pensamento foi prejudicado.
"Solicitando essa modificação, pediria a conservação, no texto, da humilde exposição relativa à tese das 'almas gêmeas', ainda que, em consciência, sejam os amigos da Casa de Ismael compelidos à apresentação de uma ressalva, em obediência à lealdade de respei­tável ponto de vista. A tese, todavia, é mais comple­xa do que parece ao primeiro exame, e sugere mais vasta meditação às tendências do século, no capítulo do 'divorcismo' e do 'pansexualismo', que a ciência menos construtiva vem lançando nos espíritos, mes­mo porque, com a expressão 'almas gêmeas', não desejamos dizer 'metades eternas', e ninguém, a rigor, pode estribar-se no enunciado para desistir de veneráveis compromissos assumidos na escola redentora do mundo, sob pena de aumentar os próprios débitos, com difíceis obrigações à frente da Lei. No caso do Cristo, devemos invocar toda a veneração para o trato de sua personalidade divina, motivo pelo qual apenas tratei do assunto com referência aos homens, para considerar que as uniões, em toda vida, são orien­tadas por ascendentes de amor mais profundos que aqueles entrosados nas humanas concepções, que se, modificam na esteira evolutiva. Se possível, eis o que me permito solicitar, renovando ao querido irmão o meu agradecimento sincero e a minha afeição de to­dos os dias”. (gn)
Emmanuel, em resposta, reconhece que houve “pequeno equívoco”, que atribui à “filtragem mediúnica”, somente na resposta à Questão 378, que não trata de almas gêmeas, mas solicita a conservação, nas questões 323, 324, 325 e 326, da sua “humilde exposição relativa à tese das almas gêmeas, [...] mais complexa do que parece ao primeiro exame, e sugere mais vasta meditação às tendências do século, [...] mesmo porque, com a expressão ‘almas gêmeas’, não desejamos dizer “metades eternas [...]”.
As respostas e a explicação de Emmanuel, em O Consolador,  e a nota de Kardec, em O Livro dos Espíritos, deixam claro que:
a)             o Espírito não é criado uno e, em seguida, dividido em duas metades, feminina e masculina, para se juntarem novamente na eternidade, ao fim do processo reencarnatório; mas,
b)             os espíritos são criados uns para os outros, pois “no sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade”.
O Consolador aprofunda, em 1940, essas e outras questões abordadas na Codificação, em 1857, esclarecendo, atualizando e complementando a obra Kardequiana, sob a responsabilidade do mesmo Espírito, em duas encarnações: Allan Kardec (1804-1869) e Chico Xavier (1910-2002)[4].
Nessa questão das almas gêmeas, podemos verificar o real significado da tarefa de Chico Xavier e de Emmanuel. Quando ambos sentiram que haveria necessidade de aprofundar os esclarecimentos a respeito do tema, ainda obscuro em O Livro dos Espíritos, não titubearam em contrariar os dirigentes da FEB, afirmando que “A tese, todavia, é mais complexa do que parece ao primeiro exame, e sugere mais vasta meditação às tendências do século...”.
A questão é complexa. Voltaremos às almas gêmeas na próxima postagem de Ostras & Pérolas.




[1] KARDEC, 2011, p. 211.
[2] EMMANUEL, 2011, p. 256-259.

[3] EMMANUEL, 2011, págs. 323-327.
[4] FRAUCHES, Celso da Costa. O Mundo Espiritual, Kardec e Chico Xavier. Brasília: Andragogia, 2011, p. 207-214.

Nenhum comentário:

Postar um comentário