Em O Consolador, Emmanuel aborda o tema das almas gêmeas, objeto das questões
298 a 302 de O Livro dos Espíritos (EMMANUEL, Espírito. O Consolador / ditado pelo Espírito Emmanuel; [psicografada por] Francisco Cândido Xavier. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011), sendo o seu
posicionamento questionado pela Federação Espírita Brasileira.
Em resposta à questão
298 de O Livro dos Espíritos – “As
almas que devam unir-se estão, desde suas origens, predestinadas a essa união e
cada um de nós tem, nalguma parte do Universo, sua metade, a que fatalmente um
dia se reunirá?” –, os Espíritos da Codificação respondem (O Livro dos
Espíritos. KARDEC,
Allan. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, págs. 210-211):
Não; não há união
particular e fatal, de duas almas. A união que há é a de todos os Espíritos,
mas em graus diversos, segundo a categoria que ocupam, isto é, segundo a
perfeição que tenham adquirido. Quanto mais perfeitos, tanto mais unidos. Da
discórdia nascem todos os males dos humanos; da concórdia resulta a completa
felicidade.
Kardec, em 1827, ao final desse capítulo “Relações simpáticas e
antipáticas dos Espíritos. Metades Eternas”, conclui, diante das respostas dos
Espíritos:
A teoria das metades eternas encerra uma simples figura, representativa
da união de dois Espíritos simpáticos. Trata-se de uma expressão usada até na
linguagem vulgar e que se não deve tomar ao pé da letra. Não pertencem decerto
a uma ordem elevada os Espíritos que a empregaram. Necessariamente, limitado sendo
o campo de suas ideias, exprimiram seus pensamentos com os termos de que se
teriam utilizado na vida corporal. Não se deve, pois, aceitar a ideia de que,
criados um para o outro, dois Espíritos tenham, fatalmente, que se reunir um
dia na eternidade, depois de haverem estado separados por tempo mais ou menos
longo.
E o que diz Emmanuel, em 1940, pela psicografia de Chico Xavier,
em O Consolador sobre as almas
gêmeas? Esclarece o nobre mentor:
323 – Será uma verdade a teoria das almas
gêmeas?
– No sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma
gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade.
Criadas umas para as outras,
as almas gêmeas se buscam, sempre que separadas. A união perene é-lhes a
aspiração suprema e indefinível. Milhares de seres, se transviados no crime ou
na inconsciência, experimentam a separação das almas que os sustentam, como a
provação mais ríspida e dolorosa, e, no drama das existências mais obscuras,
vemos sempre a atração eterna das almas que se amam mais intimamente, evolvendo
umas para as outras, num turbilhão de ansiedades angustiosas, atração que é superior a todas as
expressões convencionais da vida terrestre. Quando se encontram, no acervo
dos trabalhos humanos, sentem-se de posse da felicidade real para os seus
corações – a da ventura de sua união, pela qual não trocariam todos os impérios
do mundo, e a única amargura que lhes empana a alegria é a perspectiva de uma
nova separação pela morte, perspectiva essa que a luz da Nova Revelação veio
dissipar, descerrando para todos os espíritos, amantes do bem e da verdade, os
horizontes eternos da vida.
324 – Existe nos textos sagrados algum
elemento de comprovação para a teoria das almas gêmeas?
– Somos dos primeiros a
reconhecer que em todos os textos necessitamos separar o espírito da letra;
contudo, é justo lembrar que nas primeiras páginas do antigo Testamento, base
da Revelação Divina, está registrado: “e Deus considerou que o homem não devia
ficar só”.
325 – A atração das almas gêmeas é traço
característico de todos os planos de luta na Terra?
– O Universo é o plano
infinito que o pensamento divino povoou de ilimitadas e intraduzíveis belezas.
Para todos nós, o primeiro instante da criação do ser está
mergulhado num suave mistério, assim como também a atração profunda e
inexplicável que arrasta uma alma para outra, no instituto dos trabalhos, das
experiências e das provas, no caminho infinito do Tempo.
A ligação das almas gêmeas repousa, para o conhecimento
relativo, nos desígnios divinos, insondáveis na sua sagrada origem,
constituindo a fonte vital do interesse das criaturas para as edificações da
vida.
Separadas ou unidas, nas
experiências do mundo, as almas irmãs caminham, ansiosas, pela união e pela
harmonia supremas, até que se integrem, no plano espiritual, onde se reúnem
para sempre na mais sublime expressão de amor divino, finalidade profunda de
todas as cogitações do ser, no dédalo do destino.
326 – A união das almas gêmeas pode
constituir restrição ao amor universal?
– O amor das almas gêmeas
não pode efetuar semelhante restrição, porquanto, atingida a culminância
evolutiva, todas as expressões afetivas se irmanam na conquista do amor divino.
O amor das almas gêmeas, em suma, é aquele
que o Espírito, um dia, sentirá pela Humanidade. (gn)
Emmanuel deixa claro que um
Espírito, criado uno, não é dividido em duas metades e, ao final do ciclo
reencarnatório, essas metades voltariam a ser um só Espírito. Registra,
contudo, que “a ligação das almas gêmeas repousa, para o conhecimento relativo,
nos desígnios divinos, insondáveis na sua sagrada origem...”. Não se sente em
condições, no estágio evolutivo em que se encontra, para dar “a palavra final”
sobre o polêmico tema.
Mas a Federação Espírita
Brasileira questionou o médium Chico Xavier e o Espírito Emmanuel sobre essa
definição de “almas gêmeas”, em confronto com a resposta dos espíritos e o
texto de Kardec, citados anteriormente, que integram O Livro dos Espíritos, em “Nota à primeira edição”
de O Consolador, editado pela própria
FEB. Eis o questionamento da FEB, depois de transcrever a Questão 298 e o
comentário de Allan Kardec, já reproduzido:
Esta
circunstância e a presunção, sempre cabível, de qualquer falha na captação mediúnica,
tão sutil e delicada, nos levaram a formular ao médium, para que as submetesse
ao seu preclaro mentor e autor deste livro, as seguintes objeções:
Esta teoria,
ou hipótese, afigura-se-nos aqui algo obscura. Não satisfaz, e, da forma por
que é apresentada, parece-nos ilógica e contraditória. De fato, essa criação
original, dúplice, induz a concluir que as almas surgem incompletas. É ilação
incompatível com a onisciência de Deus. Aliás, é ideia recusada por Allan
Kardec, em O Livro dos Espíritos. A
afinidade espiritual deve ser extensiva a todas as criaturas e, se esse sistema
de gênese binária pudesse justificar-se, a comunhão universal jamais seria una
e integral. Como contingência acidental, na trajetória dos seres decaídos,
poder-se-ia talvez admitir, mas, ainda assim, em caráter transitório,
condicional, nunca absoluto. De outra forma, parece-nos, seria um dualismo
excepcional, barreira oposta à lei do amor, que deve abranger todas as
criaturas de Deus em perfeita identidade de origem e de fins. De resto, o nosso
grande amigo e lúcido Instrutor é presto no afirmar que Jesus escapa ou
transcende à sua concepção. Ora, assente como postulado incontroverso, que há
muitos Cristos, achamos nós que a teoria, ou sistema das almas gêmeas,
deixa de ter cunho universal e desnecessário será equacioná-la.
Para nós, o
problema se ajusta muito melhor ao instituto da família, como ensaio de
comunhão dual, mas sempre condicional ou acidental e transitória, colimando a
unificação coletiva com o Cristo, para Deus.
A estas considerações,
dignou-se de responder o insigne e bondoso Emmanuel, com a seguinte mensagem:
Meu amigo,
Deus te abençoe o coração nas lutas materiais. Agradecendo o teu carinho
fraterno, na colaboração amiga e sincera de sempre, peço a modificação do texto da
questão na 378, do novo trabalho, que deverá ser apresentado
nos seguintes termos:
“Grande
número de almas desencarnadas nas ilusões da vida física, guardadas quase que
integralmente no íntimo, conservam-se, por algum tempo, incapazes de apreender
as vibrações do plano espiritual superior, sendo conduzidas pelos seus guias e
amigos redimidos às reuniões fraternas do Espiritismo evangélico, onde, sob as
vistas amoráveis desses mesmos mentores do plano invisível, se processam os
dispositivos da lei de cooperação e benefícios mútuos, que rege os fenômenos da
vida nos dois planos".
Devo o
pequeno equivoco observado, concedendo à matéria certos ascendentes que só
pertencem ao espírito, a perturbações do método de 'filtragem mediúnica', onde
o nosso pensamento foi prejudicado.
"Solicitando essa modificação, pediria a conservação, no texto, da
humilde exposição relativa à tese das 'almas gêmeas', ainda que, em
consciência, sejam os amigos da Casa de Ismael compelidos à apresentação de uma
ressalva, em obediência à lealdade de respeitável ponto de vista. A
tese, todavia, é mais complexa do que parece ao primeiro exame, e sugere mais
vasta meditação às tendências do século, no capítulo do 'divorcismo' e
do 'pansexualismo', que a ciência menos construtiva vem lançando nos espíritos,
mesmo porque, com a expressão 'almas gêmeas', não desejamos dizer 'metades
eternas', e ninguém, a rigor, pode estribar-se no enunciado para desistir de
veneráveis compromissos assumidos na escola redentora do mundo, sob pena de
aumentar os próprios débitos, com difíceis obrigações à frente da Lei. No caso
do Cristo, devemos invocar toda a veneração para o trato de sua personalidade
divina, motivo pelo qual apenas tratei do assunto com referência aos homens,
para considerar que as uniões, em toda vida, são orientadas por ascendentes de amor mais
profundos que aqueles entrosados nas humanas concepções, que se,
modificam na esteira evolutiva. Se possível, eis o que me permito solicitar,
renovando ao querido irmão o meu agradecimento sincero e a minha afeição de todos
os dias”. (gn)
Emmanuel, em resposta,
reconhece que houve “pequeno equívoco”, que atribui à “filtragem mediúnica”, somente
na resposta à Questão 378, que não trata de almas gêmeas, mas solicita a
conservação, nas questões 323, 324, 325 e 326, da sua “humilde exposição relativa
à tese das almas gêmeas, [...] mais complexa do que parece ao primeiro exame, e
sugere mais vasta meditação às tendências do século, [...] mesmo porque, com a
expressão ‘almas gêmeas’, não desejamos dizer “metades eternas [...]”.
As
respostas e a explicação de Emmanuel, em O
Consolador, e a nota de Kardec, em O Livro dos Espíritos, deixam claro que:
a)
o Espírito não é criado uno e, em seguida, dividido em duas
metades, feminina e masculina, para se juntarem novamente na eternidade, ao fim
do processo reencarnatório; mas,
b)
os espíritos são criados uns para os outros, pois “no sagrado
mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua,
companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade”.
O Consolador aprofunda, em 1940, essas e outras questões abordadas na
Codificação, em 1857, esclarecendo, atualizando e complementando a obra
Kardequiana, sob a responsabilidade do mesmo Espírito, em duas encarnações:
Allan Kardec (1804-1869) e Chico Xavier (1910-2002).
Nessa
questão das almas gêmeas, podemos verificar o real significado da tarefa de
Chico Xavier e de Emmanuel. Quando ambos sentiram que haveria necessidade de
aprofundar os esclarecimentos a respeito do tema, ainda obscuro em O Livro dos Espíritos, não titubearam em
contrariar os dirigentes da FEB, afirmando que “A tese, todavia, é mais
complexa do que parece ao primeiro exame, e sugere mais vasta meditação às
tendências do século...”.
A
questão é complexa. Voltaremos às almas gêmeas na próxima postagem de Ostras
& Pérolas.
▲
EMMANUEL, 2011, p. 256-259.