O gerundismo é uma praga que
chegou ao Brasil para ficar. Infelizmente.
O governador de Brasília (2007/2010), José
Roberto Arruda, chamou a atenção sobre o excesso de uso do gerúndio, com a
edição do Decreto 28.314,
de 1º
de outubro de 2007, que “demite” esse tempo verbal em todos os órgãos da
administração pública da capital federal. O Decreto tem apenas quatro artigos:
Art. 1° Fica demitido o
Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° Fica proibido a partir
desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° Este Decreto entra em
vigor na data de sua publicação.
Art. 4º Revogam-se as
disposições em contrário. (grifei)
Foi um protesto isolado, que não
envergonhou os usuários do gerundismo. Ele acabou por ser disseminado pelos call
center, telemarketing e SACs (Serviço de
atendimento ao consumidor), como qualquer um de nós pode constar ao ligar para um
desses serviços on line. Contaminou, ainda, os diálogos nosso de cada dia.
Em 2010, foi publicado um Manifesto
Antigerundismo, sem autoria, no saite
de Odi Melo. Passados mais de oito anos o tema permanece atual, uma vez que
a praga do gerundismo continua feroz, influenciando gerações. Eis o seu criativo
texto, na íntegra:
Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar
recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não
consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação
moderna, o gerundismo.
Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo
correio ou estar enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a
pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar
lendo e, quem sabe, consiga até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo
o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa
estar escutando.
Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá
estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas
infectadas por esta epidemia de transmissão oral.
Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste
movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha das pessoas que
costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.
Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos
interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo
a estar parando de estar falando desse jeito.
Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados
a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar
ouvindo frases assim o dia inteirinho.
Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar
estourando. O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que
eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha
parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.
As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício
maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.
Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar
traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que
"We'll be sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado
que "Nós vamos estar mandando isso amanhã" acabou por estar sendo só
um passo.
Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito
dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo mundo
passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar
retornando ligações.
A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando
o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo
gerundismo.
A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá
pensando no seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta
para essa infelicidade linguística estar se instalando nas ruas e estar
entrando em nossas vidas.
Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas
como "O que cê vai tá fazendo domingo?", ou "Quando que cê vai
tá viajando pra praia?", ou "Me espera, que eu vou tá te ligando
assim que eu chegar em casa".
Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam
entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?
A única solução vai estar sendo submeter o gerundismo à mesma
campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus
coleguinhas contagiosos, como o "a nível de", o "enquanto",
o "pra se ter uma ideia" e outros menos votados.
A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá
insistindo em tá falando desse jeito?▲
(Crédito
da imagem: <http://www.blogconcurseiradedicada.com/2014/03/gerundismo-evite-esse-vicio-de-linguagem.html>)

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