Fiquei impressionado, durante o processo de impeachment
da presidente Dilma Rousseff, com a quantidade de amigos e intelectuais que
afirmavam, contra os fatos, que o processo seria “golpe”, mesmo realizado sob
os dispositivos constitucionais e de acordo com a legislação eleitoral.
Acrescia a isso a atitude dos mesmos defensores de Dilma irem para as ruas
pedirem “Lula livre”, contra todas as evidências dos crimes de corrupção
cometidos pelo ex-presidente, condenado já em dois processos em mais de duas
instâncias, por cerca de 25 anos, além de outros processos em tramitação na
Justiça. Pelas condenações julgadas por colegiado em segunda instância, o ex-presidente
está inelegível “desde a condenação até o transcurso
do prazo de 8 (oito) anos após o cumprimento da pena”, nos termos da alínea
“e”, inciso I do art. 2º da Lei
Complementar nº 64, de 18 de maio de 1990, com a redação
dada pela Lei
Complementar nº 135, de 4 de junho de 2010. Ou seja, caso
a lei seja cumprida, apenas pelos dois processos até agora julgados por
colegiado em segunda instância, o ex-presidente, ora presidiário, Lula estará
inelegível por mais de quarenta anos.
À época, fiquei impressionado com a posição de pessoas que transpareciam
lucidez, integridade e competência, adeptas da teoria do “golpe”, do “Lula
livre” e de outras “ordens de comando”, como os antigos “Fora ianques”, contra
os EUA. Procurei algum tipo de amparo ou justificativa para essas posições
fundamentalistas, sectárias. Li livros e vários artigos. Neste momento, quando
o crime organizado, aparentemente comandado por presidiários, atentam contra a
soberania nacional e a integridade moral de pessoas como o ministro Sérgio
Moro, da Justiça e Segurança Nacional, fui reler alguns artigos sobre a teoria
da imunização cognitiva e encontrei o mais lúcido e claro, de autoria do
jornalista, cartunista e escritor Luciano Pires. Deixo de assinar o Blog desta
semana para entregá-la a Luciano Pires, em artigo postado em 31/3/2016, sob a
título A imunização coletiva, transcrito a seguir, na íntegra.
Luciano Pires
O ano é 1995. Um vídeo escandaloso mostrado no
Jornal Nacional apresenta o bispo Edir Macedo ensinando sua equipe como tirar o
máximo de dinheiro dos fiéis. Se você não lembra, está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=W7wqqJFtaYc .
Quando assisti àquelas imagens, pensei: o bispo acabou…
Passados 20 anos, o bispo e sua igreja nunca estiveram tão fortes, tão ricos,
tão poderosos. O escândalo veiculado no Jornal Nacional não destruiu nem o
bispo nem seu projeto, sua base de fiéis cresceu assustadoramente,
transformando a Igreja Universal num negócio bilionário, mesmo diante da evidência
dos fatos.
Coisas assim acontecem ao longo de toda história da
humanidade: grupos de pessoas que, mesmo diante das mais claras evidências de
perigo, de más intenções, de risco, permanecem seguindo líderes visionários,
malucos ou simplesmente desonestos. Como é possível que tanta gente se recuse a
ver a verdade?
Os estudiosos explicam com a imunização
cognitiva.
Cognitiva vem de cognição, que é o processo de aquisição
do conhecimento, incluindo o pensar, a reflexão, a imaginação, a atenção, raciocínio,
memória, juízo, o discurso, a percepção visual e auditiva, a aprendizagem, a
consciência, as emoções. Envolve os processos mentais que influenciam o
comportamento de cada indivíduo.
A imunização
cognitiva é um escudo que permite que as
pessoas se agarrem a valores e credos, mesmo que fatos objetivos demonstrem que
eles não correspondem à verdade. A pessoa cognitivamente imunizada está no
terreno da fé, que dispensa o raciocínio lógico. Para ela, argumentos lógicos
não têm relevância.
E então assistimos gente com estudo, inteligente,
articulada, que sabemos que não está tirando nenhum proveito material,
defendendo em público o indefensável. Como é que essas pessoas chegam a
esse ponto?
Bem, existem ao menos cinco fases no processo de imunização
cognitiva.
Primeira fase:
isolamento de quem tem opiniões contrárias, protegendo suas ideias. A pessoa
vai eliminando de seu convívio ou mesmo de sua atenção, quem pensa diferente.
Segunda fase:
redução da exposição às ideias contrárias. Passa a ler e ouvir apenas as
opiniões em linha com seus credos. Nos estados totalitários, é quando a
liberdade de expressão passa a ser ameaçada, quando a imprensa perde a
liberdade, quando vozes dissidentes são caladas. É quando os processos
educacionais adotam opiniões selecionadas, com autores e textos cuidadosamente
escolhidos para seguir apenas uma visão de mundo.
Terceira fase:
conexão dos credos à emoções poderosas. Se você não seguir aquelas ideias, algo
de ruim vai acontecer. Lembra do “se você pecar, vai para o inferno”? Se você
não votar naquele candidato, sua vida, suas economias, seus benefícios estarão
em perigo…
Quarta fase:
associação a grupos que trabalham para combater as ideias dos grupos
contrários. Isso acontece não só em política, mas até mesmo na ciência, quando
métodos de investigação científica focam nas fraquezas das teorias adversárias,
ignorando os pontos fortes.
Quinta fase:
a repetição. Repetição, repetição, repetição. Cria-se um tema, um slogan que
materializa um determinado credo ou visão, que passa a ser repetido como um
mantra, numa técnica de aprendizado. O grito “não vai ter golpe”, por exemplo,
não é uma criação espontânea, obra do acaso. É pensado, calculado. Sua
repetição imuniza cognitivamente as pessoas contra os argumentos a favor do
impeachment.
Os especialistas em psicologia das massas sabem que nossas
mentes evoluíram muito mais para proteger nossos credos que para avaliar o que
é verdade e o que é mentira. E os especialistas em comunicação constroem
retóricas fantásticas, com intenção de desviar o tema principal e,
especialmente, imunizar cognitivamente os soldados da causa.
E aí, meu caro, minha cara, não adianta mostrar o vídeo, o
recibo, o cheque, o testemunho do caseiro, a ordem da transportadora, o grampo
telefônico… O imunizado cognitivo está vacinado contra fatos objetivos.
Tá explicado então? Se você está se sentindo entorpecido
das ideias, incapaz de descer do muro, provavelmente alguém está lhe
ministrando umas doses de imunizante cognitivo.
E você nem percebeu que tá dando a grana pro bispo.▲

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