domingo, 23 de junho de 2019

Imunização cognitiva: fatos X fake news mental



Fiquei impressionado, durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, com a quantidade de amigos e intelectuais que afirmavam, contra os fatos, que o processo seria “golpe”, mesmo realizado sob os dispositivos constitucionais e de acordo com a legislação eleitoral. Acrescia a isso a atitude dos mesmos defensores de Dilma irem para as ruas pedirem “Lula livre”, contra todas as evidências dos crimes de corrupção cometidos pelo ex-presidente, condenado já em dois processos em mais de duas instâncias, por cerca de 25 anos, além de outros processos em tramitação na Justiça. Pelas condenações julgadas por colegiado em segunda instância, o ex-presidente está inelegível “desde a condenação até o transcurso do prazo de 8 (oito) anos após o cumprimento da pena”, nos termos da alínea “e”, inciso I do art. 2º da Lei Complementar nº 64, de 18 de maio de 1990, com a redação dada pela Lei Complementar nº 135, de 4 de junho de 2010. Ou seja, caso a lei seja cumprida, apenas pelos dois processos até agora julgados por colegiado em segunda instância, o ex-presidente, ora presidiário, Lula estará inelegível por mais de quarenta anos.
À época, fiquei impressionado com a posição de pessoas que transpareciam lucidez, integridade e competência, adeptas da teoria do “golpe”, do “Lula livre” e de outras “ordens de comando”, como os antigos “Fora ianques”, contra os EUA. Procurei algum tipo de amparo ou justificativa para essas posições fundamentalistas, sectárias. Li livros e vários artigos. Neste momento, quando o crime organizado, aparentemente comandado por presidiários, atentam contra a soberania nacional e a integridade moral de pessoas como o ministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Nacional, fui reler alguns artigos sobre a teoria da imunização cognitiva e encontrei o mais lúcido e claro, de autoria do jornalista, cartunista e escritor Luciano Pires. Deixo de assinar o Blog desta semana para entregá-la a Luciano Pires, em artigo postado em 31/3/2016, sob a título A imunização coletiva, transcrito a seguir, na íntegra.
Luciano Pires
O ano é 1995. Um vídeo escandaloso mostrado no Jornal Nacional apresenta o bispo Edir Macedo ensinando sua equipe como tirar o máximo de dinheiro dos fiéis. Se você não lembra, está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=W7wqqJFtaYc .
Quando assisti àquelas imagens, pensei: o bispo acabou… Passados 20 anos, o bispo e sua igreja nunca estiveram tão fortes, tão ricos, tão poderosos. O escândalo veiculado no Jornal Nacional não destruiu nem o bispo nem seu projeto, sua base de fiéis cresceu assustadoramente, transformando a Igreja Universal num negócio bilionário, mesmo diante da evidência dos fatos.
Coisas assim acontecem ao longo de toda história da humanidade: grupos de pessoas que, mesmo diante das mais claras evidências de perigo, de más intenções, de risco, permanecem seguindo líderes visionários, malucos ou simplesmente desonestos. Como é possível que tanta gente se recuse a ver a verdade?
Os estudiosos explicam com a imunização cognitiva.
Cognitiva vem de cognição, que é o processo de aquisição do conhecimento, incluindo o pensar, a reflexão, a imaginação, a atenção, raciocínio, memória, juízo, o discurso, a percepção visual e auditiva, a aprendizagem, a consciência, as emoções. Envolve os processos mentais que influenciam o comportamento de cada indivíduo.
imunização cognitiva é um escudo que permite que as pessoas se agarrem a valores e credos, mesmo que fatos objetivos demonstrem que eles não correspondem à verdade. A pessoa cognitivamente imunizada está no terreno da fé, que dispensa o raciocínio lógico. Para ela, argumentos lógicos não têm relevância.
E então assistimos gente com estudo, inteligente, articulada, que sabemos que não está tirando nenhum proveito material, defendendo em público o indefensável. Como é que essas pessoas chegam a esse ponto?
Bem, existem ao menos cinco fases no processo de imunização cognitiva.
Primeira fase: isolamento de quem tem opiniões contrárias, protegendo suas ideias. A pessoa vai eliminando de seu convívio ou mesmo de sua atenção, quem pensa diferente.
Segunda fase: redução da exposição às ideias contrárias. Passa a ler e ouvir apenas as opiniões em linha com seus credos. Nos estados totalitários, é quando a liberdade de expressão passa a ser ameaçada, quando a imprensa perde a liberdade, quando vozes dissidentes são caladas. É quando os processos educacionais adotam opiniões selecionadas, com autores e textos cuidadosamente escolhidos para seguir apenas uma visão de mundo.
Terceira fase: conexão dos credos à emoções poderosas. Se você não seguir aquelas ideias, algo de ruim vai acontecer. Lembra do “se você pecar, vai para o inferno”? Se você não votar naquele candidato, sua vida, suas economias, seus benefícios estarão em perigo…
Quarta fase:  associação a grupos que trabalham para combater as ideias dos grupos contrários. Isso acontece não só em política, mas até mesmo na ciência, quando métodos de investigação científica focam nas fraquezas das teorias adversárias, ignorando os pontos fortes.
Quinta fase: a repetição. Repetição, repetição, repetição. Cria-se um tema, um slogan que materializa um determinado credo ou visão, que passa a ser repetido como um mantra, numa técnica de aprendizado. O grito “não vai ter golpe”, por exemplo, não é uma criação espontânea, obra do acaso. É pensado, calculado. Sua repetição imuniza cognitivamente as pessoas contra os argumentos a favor do impeachment.
Os especialistas em psicologia das massas sabem que nossas mentes evoluíram muito mais para proteger nossos credos que para avaliar o que é verdade e o que é mentira. E os especialistas em comunicação constroem retóricas fantásticas, com intenção de desviar o tema principal e, especialmente, imunizar cognitivamente os soldados da causa.
E aí, meu caro, minha cara, não adianta mostrar o vídeo, o recibo, o cheque, o testemunho do caseiro, a ordem da transportadora, o grampo telefônico… O imunizado cognitivo está vacinado contra fatos objetivos.
Tá explicado então? Se você está se sentindo entorpecido das ideias, incapaz de descer do muro, provavelmente alguém está lhe ministrando umas doses de imunizante cognitivo.
E você nem percebeu que tá dando a grana pro bispo.

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