Há décadas, por
necessidade de deslocamento entre cidades, com rapidez e mais segurança, para o
exercício de minhas atividades profissionais, agora reduzidas drasticamente,
para viver “meia aposentadoria”, uso o transporte aéreo, preferencialmente.
Como diria o locutor esportivo, ao adentrar o gramado, ops, o interior do avião e sentar na poltrona reservada,
vejo e leio, postada à minha frente, a seguinte mensagem: “Favor apertar o
cinto enquanto estiver sentado”. E ficava e fico pensando, também pela milionésima
vez, “cá com os meus botões”: “Como vou apertar o cinto do banco, estando em
pé?”. Tolerância zero.
Com
a introdução da computação e da informática no dia a dia das pessoas, das
empresas, das organizações e dos poderes públicos, veio a necessidade de
inserir o zero à esquerda dos números positivos, para preencher os milhares de
formulários que nos são impostos pelos diversos processos e sistemas. Nenhum
quadradinho à esquerda pode ficar em branco, nesses formulários eletrônicos. O
zero à esquerda não acrescenta nada ao número, em termos de valor.
Pode
ser usado, ainda, por exemplo, para reduzir o
número “5” a um décimo do seu valor absoluto: 0,5.
Paralelamente,
a expressão “zero à esquerda”, aplicável aos dois gêneros, passou a significar
pessoa sem valor, inexpressiva, inútil, insignificante. Um zero à esquerda.
Mas
o zero à esquerda passou, também, a ser inserido em cartazes, anúncios, números
de guichês de atendimento em bancos, repartições públicas, número de
residências, casas ou apartamentos, e inúmeras outras referências. Em cheques e
documentos oficiais (petições, contratos, atos normativos etc.) o zero à
esquerda não assegura nenhuma lisura; nesses casos, os números devem ser
escritos por extenso.
Qual
a utilidade, por exemplo, do zero à esquerda em um anúncio publicitário ou outdoor?
Alguém vai subir em um outdoor para adulterar a data de um evento? Como será
possível, após publicado o anúncio, adulterar uma data em publicidade ou
propaganda em TV, revista ou jornal? Caso houvesse apropriação dos custos das
tintas e dos trabalhos gastos com os zeros à esquerda, seguramente, a economia
nacional economizaria alguns milhões de reais, levando-se em conta todos os
zeros escritos sem nenhuma necessidade.
Há
alguns anos, fiquei hospedado em um hotel, de uma tradicional rede hoteleira,
em cidade do nordeste, e pude verificar o uso inadequado do zero à esquerda. O
hotel tinha três andares e a numeração dos apartamentos era com o uso de placas
de cerâmica, no formato mais ou menos de 15x20cm, com números em grande
formato, de forma artesanal. Cada andar tinha cem apartamentos. A numeração
começava do térreo: 001, 002, 003, 004 e assim sucessivamente, até chegar ao
número cem, nesse andar. Qual a utilidade do zero à esquerda? Quem poderia
adulterar a numeração dos apartamentos naquelas placas e para quê? Foram gastos
99 zeros sem nenhuma necessidade, escritos artesanalmente. Gastou-se cerâmica e
serviço sem nenhuma utilidade. Possivelmente, o preço dessas placas seria
reduzido à metade sem os zeros à esquerda.
E
o 01 de janeiro escrito na grande
mídia quando o correto é 1º de janeiro? Será que o sujeito que faz essa
besteira pensa que alguém vai adulterar a data para 11 de janeiro? Tolerância
zero.
Às
vezes, quando chego em algum encontro profissional, recebo a pergunta: “Você já
chegou?”. Tenho vontade de responder: “Não, esse é o meu clone”... E quando
atendo alguém no telefone fixo de minha residência? De vez em quando, vem a
pergunta: “Onde você está?”. Uma tentação danada pra dizer: “Na Lua!”.
Tolerância zero.
Nos
jornais da TV, a coletânea de perguntas despropositadas é frequente. O cara
perdeu a mãe, que foi assassinada em um assalto, e o(a) repórter pergunta com
um leve sorriso no rosto: “Como você se sente?”. Algo semelhante acontece
quando o âncora do jornal, após noticiar trágico acontecimento, encerra a
apresentação do noticiário com um “boa noite” e um simpático sorriso.
Tolerância zero.
A
ator Francisco Milani celebrizou a frase “tolerância zero”, em um programa
cômico de TV. Falecido o ator, faleceu o personagem, o Saraiva, que
ridicularizava questões como essas e outras mais bizarras.
“Tolerância
zero”, contudo, foi slogan – e ainda é – de vários programas ou projetos
governamentais destinados a eliminar a violência, a criminalidade e outras
mazelas de membros de sociedades onde há governo sério, eficiente e eficaz.
Na
sua clássica definição, “tolerância zero” tem
como meta principal incutir o hábito do respeito à legalidade, à urbanidade, à
educação e valores éticos, tendo por objetivo coibir delitos, desde os
pequenos, para que a população sinta os efeitos imediatos dessa política. Isso
aconteceu, por exemplo, em Nova Iorque, há tempos, em um programa de
“Tolerância zero”, que começou por coibir drasticamente pequenos delitos, como
urinar e jogar lixo em vias públicas. Isso, porém, não impede que simples
mortais como eu, o Saraiva e outros apliquemos a expressão “tolerância zero”
para os pequenos delitos de expressão e outros menos votados.
Ao
escrever estas “mal traçadas linhas”, contudo, ponho-me a pensar se as mesmas
não serão classificadas pelo possível leitor como um zero à esquerda, ou seja,
sem nenhuma utilidade...¨
Nota: o poder da água
voltará a ser abordado em postagens futuras.
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